Inicio Cinema Opinião A AUTÓPSIA – CRÍTICA

A AUTÓPSIA – CRÍTICA

Terror se destaca pelo cuidado narrativo e a boa utilização de clichês do gênero.

132
0
COMPARTILHE

autopsy-posterAndré Øvredal é um diretor norueguês cuja filmografia ainda é modesta, mas intrigante. Em 2010, lançou O Caçador de Troll, uma espécie de terror fantasioso na estética de found-footage. Ali, o cineasta já demonstrava sua visão particular na construção do suspense, sem ter medo de investir em algo mais gráfico quando necessário. Por ter um tom muito peculiar e brincar com gêneros, o filme não ficou muito conhecido entre o grande público, mas obteve bastante respeito entre os cinéfilos que garimpam a internet e os festivais independentes à procura de algo novo e revigorante.

Em seu novo longa, A Autópsia, Øvredal consegue equilibrar melhor seu estilo particular com o que geralmente é aceito pelo grande público. Isso não quer dizer que o diretor fique a mercê das convenções do gênero. Durante toda a projeção, percebemos um cuidado narrativo ainda pouco comum em obras de mainstream, mas que felizmente tem crescido entre jovens cineastas de terror.

A premissa gira em torno de um misterioso cadáver encontrado em uma cena de crime, mas que não se encaixa ali. O xerife Burke (Michael McElhatton) resolve levar o corpo aos cuidados de seu amigo Tommy Tilden (Brian Cox), um experiente médico legista que tem seu seu filho Austin (Emile Hirsch) como assistente durante o trabalho com autópsias e cremações.

O roteiro de Ian Goldberg e Richard Naing leva boa parte do crédito pela assertividade do filme. A condensação do enredo, das locações e dos personagens permite um investimento maior na relação entre eles e no mistério que se desenvolve em torno do corpo de Jane Doe – como é chamada provisoriamente pelos médicos, uma vez que não há nenhuma informação sobre quem seja a mulher morta.

O primeiro ato é o mais interessante do filme. Assistimos com entusiasmo a dupla de legistas tentando explicar cada estranha característica do cadáver. A química entre os dois protagonistas é outro ponto forte do filme. Cox e Hirsch carregam o filme sozinhos e convencem tanto quanto profissionais da medicina quanto como pai e filho. Se esta relação não funcionasse, o filme desmoronaria logo no começo.

A montagem cadenciada de Peter Gvozdas e Patrick Larsgaard constrói uma condução narrativa em tempo real durante boa parte do filme. Isso é essencial para que sua proposta funcione, levando o espectador a participar da história junto aos personagens.

A medida em que nos aproximamos da resolução do mistério, o paciente desenvolvimento da história vai dando lugar a algo mais visceral e tradicional do gênero de terror. No entanto, é neste momento em que se percebe a desenvoltura de Øvredal em lidar com os clichês de uma forma sempre inventiva.

A fotografia de Roman Osin combinada ao design de produção de Matt Gant e à direção de arte de Astrid Sieben criam um clima quase onírico durante o terceiro ato. Muitas vezes, flertando com a estética visual lúdica dos giallos italianos de Dario Argento e Mario Bava – algo que infelizmente é negligenciado pelo cinema americano, mas é sempre bem-vindo quando raramente referenciado.

A Autópsia pode decepcionar alguns espectadores mais assíduos que esperam algo totalmente inovador quando são fisgados no primeiro ato. Porém, é justamente por se utilizar de anacronismos e formatos clássicos do gênero de forma extremamente segura e pouco convencional, que o filme encontra o seu lugar.

nota-7-5

Anuncie no Cinemaginando
Anuncie no Cinemaginando
Anuncie no Cinemaginando