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UM DIA DE CHUVA EM NOVA YORK – CRÍTICA

Escapista, novo filme de Woody Allen é uma comédia romântica nostálgica e conservadora.

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Um Dia de Chuva em Nova York parte de uma premissa para lá de simples: estudante de jornalismo numa universidade do interior, Ashleigh Enright (Elle Fanning) consegue entrevista exclusiva com o cineasta Roland Pollard (Liev Shreiber), que está em NY finalizando seu novo projeto. Gatsby Welles (Timothée Chalamet), aluno do curso de artes plásticas e namorado de Ashleigh, aproveita a ocasião para mostrar a cidade onde nasceu a sua companheira e os dois partem em viagem. Uma vez na Big Apple, os caminhos do casal tomam rumos distintos no sem-fim de encontros e desencontros durante de um fim de semana chuvoso.

Nono filme escrito e dirigido por Woody Allen na década, o longa tem a assinatura do autor facilmente reconhecida: da canção que embala os créditos de abertura (cujos caracteres em branco são projetados num fundo preto), passando pelo temperamento melancólico e sarcástico do personagem que assume o alter ego de Allen e pelas linhas de diálogo preenchidas de referências a artistas e obras do cinema, da literatura, da música – o que torna óbvio a sacada do nome Gastby Welles para o protagonista.

Mudando o tom sóbrio dos últimos grandes trabalhos de Allen – Blue Jasmine e Roda Gigante –, aqui o roteiro resgata uma nostalgia própria do diretor. Auxiliado pela terceira vez consecutiva por Vittorio Storaro na direção de fotografia, o cineasta pinça instantes nos quais frestas de uma época (por suposição) genuinamente romântica (na visão de Allen, os anos 1920 e 1930) são abertas em meio ao contemporâneo fugaz, aproximando-se por essa perspectiva (e só, mesmo) do brilhante Meia-Noite em Paris.

A diferença gritante é que agora os deslocamentos propostos derivam não de uma atmosfera onírica, nem do encaixe minucioso entre forma e conteúdo, mas do escapismo, do maniqueísmo e de uma visão de mundo no mínimo conservadora que, em última instância, esbarra no machismo e na misoginia.

Nesse sentido, fica evidente como o arco dramático da jovem interpretada por Elle Fanning a condena à ingenuidade estereotipada de uma “caipira” que se encontra na cidade grande, onde é cortejada/desejada ao longo dos 90 minutos de projeção por homens de meia-idade inseguros, chauvinistas e/ou em crise existencial. E se no fim do dia a moça ainda precisa ouvir passivamente o namorado interpretar essa sua jornada com palavras que atestam os aspectos destacados, então é porque o roteiro pouco faz pelo desenvolvimento crítico da personagem, ainda que no geral Fanning entregue uma performance consistente.

Por sua vez, Timothee Chalamet assume o protagonismo da obra incorporando os maneirismos típicos que caracterizam uma persona à lá Woody Allen, da imposição de voz à interpretação física, facilitada pela magreza ossuda do ator e pela postura que adota, curvando os ombros para frente. Desperdiçando o potencial de talento que Chalamet tem demonstrado em projetos recentes, Um Dia de Chuva em Nova York parece ter receio em desenvolver facetas mais complexas de alguém que soa sempre blasé, beirando um sujeito pedante – e em nenhum momento Allen convence quanto ao que deseja com tal composição. Trata-se de uma cutucada, evidentemente, mas contra o quê: uma geração, uma juventude superprotegida e alienada ou uma representação de classe e status?

Agora, em um elenco que conta com participações pontuais de Jude Law, Rebecca Hall e Diego Luna, quem se destaca mesmo é Selena Gomez. Ela pode não ter o tempo de tela que mereceria, mas quando está presente é o sopro de vida que falta ao restante do longa. Sem dúvida que o filme cresce em sua interação com Chalamet, sendo inegável reconhecer a química entre ambos. E não deixa de ser curioso notar como a madura e independente Shannon parece saída de outro universo que não o do restante dos personagens.

Estruturado como uma comédia romântica convencional que faz uso da chuva para comentar a trajetória dos indivíduos que retrata, Um Dia de Chuva em Nova York pode até divertir e envolver o espectador em seus melhores momentos (grosso modo, no primeiro ato), mas não deixa de ser um Woody Allen menos sagaz e inventivo, em especial enquanto diretor – é mais do mesmo ou, se preferir, menos do mesmo. No fim da projeção, o sentimento que fica é de uma despedida de Allen dos anos dois mil e dez que oscila entre o automático e o errático.

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