O cristianismo é uma importante parte na formação pessoal de Martin Scorsese. O diretor já revelou que sua paixão pelo cinema, pela narrativa imagética, tomava forma em histórias religiosas ilustradas que criava em sua infância, além de frequentar regularmente a igreja católica. Em sua carreira profissional, Scorsese dirigiu dois filmes com temática primordialmente religiosa: A Última Tentação de Cristo (1988) e Kundun (1997), embora outras obras de sua autoria possam apresentar essa questão em diferentes níveis.
Em Silêncio, o diretor não só tem oportunidade de contar uma história intrigante sobre o assunto de forma mais direta como também encontra espaço para referenciar visualmente um de seus ídolos, o cineasta japonês Akira Kurosawa. A trama se passa no século XVII, onde acompanhamos os padres portugueses Rodrigues (Andrew Garfield) e Garupe (Adam Driver) em sua missão de localizar o padre Ferreira (Liam Neeson) em território japonês, uma vez que supostamente teria renegado sua fé cristã. Lá os padres se deparam com uma perseguição intensa e constante, que já custou as vidas de vários japoneses convertidos.
Logo na primeira cena, percebemos um cuidado estético pouco visto atualmente. A fotografia de Rodrigo Prieto, merecidamente indicada ao Oscar, cria composições de quadro que parecem pinturas, complexas em profundidade de campo, disposição dos personagens e utilização de elementos naturais que evocam uma atmosfera sombria, hostil e ao mesmo tempo bela.
Dante Ferretti também ajuda a contar a história com seu design de produção. O feudalismo japonês é bem representado visualmente, contrastando com as breves cenas do continente europeu. Há uma diferença clara também entre os moradores dos vilarejos e os inquisidores do Japão. Naturalmente, a fonte de opressão é sempre representada com ostentação, mas nunca soando irrealista. Os trajes limpos de cores bem definidas se impõem às vestimentas precárias, uniformes e sujas dos cidadãos que temem o cárcere e a tortura provenientes da perseguição religiosa.
Scorsese chama atenção para si, mas não de maneira egocêntrica ou capciosa, mas por trabalhar a linguagem cinematográfica com maestria, trazendo à tona uma atmosfera clássica que em muitos momentos lembra o cinema mudo. Os closes estendidos e a trilha sonora econômica valorizam o poder da imagem em si. Sua direção evidencia a linguagem corporal dos personagens para dar dinamismo à mise-en-scène, muitas vezes poupando os movimentos de câmera para momentos chaves do longa.
Os protagonistas entregam atuações convincentes. O sofrimento e a devoção estão estampados em seus rostos, e nesse quesito, Driver se destaca. O overacting costumeiro de Garfield é bem-vindo neste caso, pois é compatível com as provações pelas quais seu personagem passa. A interpretação soa verdadeira, fazendo-nos considerar que o ator merecia uma indicação ao Oscar por este filme em vez de seu papel em Até o Último Homem, que cai facilmente no melodrama barato.
O roteiro de Jay Cocks e Scorsese, adaptado do livro de Shûsaku Endô, é paciente no desenvolvimento narrativo. A economia de diálogos durante o primeiro ato ajuda a construir uma atmosfera sufocante e misteriosa, ao mesmo tempo em que traz o silêncio do título para a narrativa. Embora pontualmente possa soar tendenciosa, é claro o esforço dos escritores de não transformar a história em algo prioritariamente religioso. Dá-se uma grande importância à crença dos protagonistas, não enquanto cristianismo em si, mas sim no modo como é encarada pelos personagens, sem desconsiderar o contexto em que se faz presente. A fé e os princípios transcendem a religião propriamente dita.
A grande duração da metragem vem de uma necessidade de fidelidade ao romance que poderia ser reavaliada. A tentativa de imergir o espectador no drama dos protagonistas fazem com que algumas cenas soem repetitivas. Thelma Schoonmaker, editora que venceu três vezes o Oscar por filmes de Scorsese (Touro Indomável, Gangues de Nova York e A Invenção de Hugo Cabret) e recentemente demonstrou uma desenvoltura rítmica invejável em O Lobo de Wall Street (2013), aqui se estende demais em sequências cuja funcionalidade já foi estabelecida.
É perceptível a dedicação singular de Scorsese em relação a este filme. O diretor já declarou que tenta adaptar o livro há décadas, e talvez por isso tenha imposto uma visão muito particular e pouco maleável ao corte final. A especificidade da temática, somada a uma narrativa parcimoniosa e às quase três horas de duração, pode desinteressar o espectador casual, podendo o longa beneficiar-se com pelo menos 20 minutos a menos. No fim das contas, é uma daquelas obras que devem receber seu devido mérito apenas vários anos após a morte do diretor, não configurando atualmente como uma de suas mais memoráveis, mas certamente podendo ser uma de suas melhores.










