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PARASITA – CRÍTICA

Longa coreano mistura gêneros em discussão social.

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Há muitos anos, o cinema sul-coreano tem chamado a atenção do mundo com obras inventivas, que brincam com gêneros ao mesmo tempo em que os revigora, experimentando na forma e no conteúdo de uma maneira que a indústria hollywoodiana pouco se atreve. Filmes como Oldboy, Invasão Zumbi e Primavera, Verão, Outono, Inverno… e Primavera tomaram o gosto da crítica e de parte do público que procura algo fora da caixa. 

Neste sentido, o diretor Joon-ho Bong tem se mostrado um dos grandes nomes do cinema recente. A diversidade de tons e de temas demonstram sua versatilidade na maneira de contar histórias, como é o caso do excêntrico Okja e do imaginativo Expresso do Amanhã. Por outro lado, seu novo filme, Parasita – ganhador da Palma de Ouro no Festival de Cannes –, traz um enredo mais naturalista para discutir o embate de classes sociais. Longe de se tornar rígido ou sacal pela temática, o longa apresenta uma narrativa bem humorada e ao mesmo tempo densa. 

Acompanhamos uma pequena família de classe baixa que, na emergência de melhores condições financeiras, cria um plano para empregar todos os membros na casa de uma única família rica. Apresentando os personagens de maneira divertida e relacionável, Bong fisga a empatia do espectador logo nos primeiros minutos de projeção. Kang-ho Song, que interpreta o pai da família empregada, e Yeo-jeong Jo, que vive a mãe da família contratante, são os grandes destaques durante a primeira metade do longa. 

A decupagem é cuidadosa na forma que representa visualmente o que acontece para além do que está sendo dito. Os planos fechados da fotografia de Kyung-pyo Hong, que também trabalhou com o diretor em Expresso do Amanhã, revelam os detalhes escondidos em cada ação e em cada olhar, atraindo plasticamente até em situações banais de plano e contra-plano pelo simples ângulo da câmera. 

Ha-jung Lee, designer de produção que já havia trabalhado com o Bong em Okja, evidencia de forma cômica – se não fosse trágica – a discrepância entre as classes econômicas das duas famílias. A casa dos Park é grande e espaçosa, enquanto a dos Kim é apertada e abaixo do nível do asfalto, como se vivessem literalmente em um esgoto, sendo algumas vezes até comparados a baratas. 

Porém, o que parece ser apenas uma comédia com bons toques de crítica social – sendo válida por si só e realizado de modo excelente – toma proporções inesperadas. A partir de certo ponto, há uma ressignificação de elementos que antes eram trabalhados apenas de modo descritivo. As noções de “acima” e “abaixo” se tratando de classes sociais se tornam literais e fundamentais ao enredo. As analogias claras e diretas garantem a assertividade do realizador no comentário sobre (in)justiça social e retribuição. 

Parasita, de modo semelhante à Bacurau, encara tais questões de forma emergencial, abordando temáticas sociopolíticas com linguagem visceral e necessariamente gráfica. É um “pós-discurso” sem espaço para pseudointelectualismo e metáforas vagas sobre elementos reais e urgentes. 

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