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O MECANISMO – CRÍTICA

Apesar dos altos e baixos, a série faz uma representação intrigante da Lava Jato.

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Criativa demais e pouco jurídica. Auto tutela é quando resolvemos fazer justiça com nossas próprias mãos. Apesar de proibido, é hipocrisia dizer que ninguém gostaria fazer isso. José Padilha tem uma ideologia bem definida sobre o que pensa do Brasil. Polícia e corrupção, além de ter uma ideia fixa sobre o que tem de errado nesse pais. Basicamente, eu poderia deduzir que a série é uma continuação indireta de Tropa de Elite 2: O inimigo agora é outro (2010). Inclusive, uma das cenas se parece muito com a cena do depoimento do Capitão Nascimento.

A série fala sobre o período da Lava-Jato, operação da Polícia Federal do Brasil que investiga um dos maiores escândalos de corrupção da história do Brasil. A narrativa foi abordada no livro Lava Jato – O Juíz Sergio Moro e os Bastidores da Operação que Abalou o Brasil, de Vladimir Netto, e conta a historia a partir da perspectiva de alguns dos personagens: Marco Ruffo (Selton Mello), um policial com transtorno bipolar que foi exonerado, e Verena Cardone (Caroline Abras), uma “discípula de Ruffo” e  delegada de polícia que dá andamento à investigação e começa a Lava Jato.

O resto, meus leitores, nós já conhecemos, mas não deixa de ser intrigante, pois series policiais com Padilha realmente são interessantes. O que ele aprendeu em Narcos e com os filmes Tropa de Elite foi aplicado em O Mecanismo. Todavia, continua com narrativas para fazer com que nos importemos com os personagens, que são quase idênticos em suas narrativas. Como Ruffo e sua esposa, que não aceita seu trabalho de investigador. A parte psicológica do personagem principal, que realmente é preocupante, é um Capitão Nascimento sem Wagner Moura. Seu arco é tão semelhante ao de Nascimento que dá vontade de rever Tropa de Elite. Verena, por outro lado, tem um arco interessante onde ela passa a desconfiar de todos ao longo da investigação, semelhante ao personagem de Pedro Pascal em Narcos.

Padilha tem uma forma de pensar sobre a polícia e coloca muita esperança nos honestos, isso faz nos importar com os policiais. Principalmente com Verena, que sem dúvidas tem a melhor performance. Já no outro lado da moeda ele soube acertar. Os criminosos arrasam, com destaque para Enrique Días, que faz o doleiro Roberto Ibrahim, inspirado em Alberto Youssef. Outro ator que merece destaque é Pietro Mário, que interpreta Mago, alguém que tenta salvar de todos os modo os empreiteiros.

O resto do elenco, como os Procuradores de Curitiba e até mesmo a representação do juiz Sergio Moro, aqui chamado de Paulo Riggo (Otto Jr.), atuam muito bem. O ponto negativo é a mulher de Ruffo, Regina (Susana Ribeiro), que praticamente não fala nada e faz cara de paisagem. Tudo foi modificado para que o espectador consiga ligar quem é quem na vida real, tornando a experiência ainda mais interessante, apesar das figuras que representam os ex-presidentes não serem bem aproveitadas. Um arco pouco necessário é o de Claudio (Lee Taylor), um dos procuradores que não acrescenta em nada na historia com seus romances paralelos. E por falar em Tropa de Elite, o elenco conta com uma ponta de Caio Junqueira, o Neto do filme original. Ele é pouco útil na série, mas um detalhe interessante é que o nome de seu personagem termina com Neto. Seria Padilha dando uma de Tarantino?

E com o cenário onde os bandidos estão sempre um passo a frente, com articulações e caras caricatas além dos velhos discursos de que sempre vão sair impunes, a trama segue. Essa parte é a que incomoda e nos faz querer a auto tutela, como disse anteriormente. Ninguém gosta de impunidade, a comemoração dentro das celas é muito bem filmada e quer provocar reação ao espectador. E essa auto tutela é exercida por Ruffo, que praticamente anda armado ameaçando quem quer que seja, pegando cada um dos criminosos em suas falhas e sendo um gênio que ninguém vê ou finge não perceber, um justiceiro que quer colocar um cara na cadeia mas acaba em algo bem maior. Outro elemento que vai causar incômodo é a falta de confiança do autor nas instituições judiciarias, o que é prejudicial para as mesmas, sendo caracterizadas como um monte de egos inflados querendo chamar a atenção.

Essa trama genérica de série se alonga, mas prende o espectador. Talvez não funcionasse em um filme, mas está no lugar certo e vai causar controvérsia, pois apesar de negar ter viés politico, a série claramente tenta nos fazer confiar mais na Lava Jato. Padilha tenta, mas não convence ninguém de que não há ideologia e cutuca a ferida sem dó, mostrando mais uma vez que o inimigo é outro. Dessa vez não é o sistema, mas o mecanismo que faz do brasileiro um peão em um jogo de xadrez.

É um serie muito boa e merece ser observada, dando licença poética ao autor e não ser criticada por simples ideologia política. E quem achou que não ia ter choque de cultura, achou errado.

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