Assistindo ao trailer de Manchester à Beira-Mar, indicado a seis Oscars em 2017, temos a equivocada impressão de que se trata de mais um drama familiar clichê cujo único intuito é emocionar um público casual de forma piegas. Entretanto, o filme em si revela seu real valor, contando uma história mais complexa do que aparenta em primeiro olhar.
Seguimos o infame Lee Chandler, personagem de Casey Affleck, que entrega uma interpretação parcimoniosa, porém eficaz. Trabalhando como “faz-tudo” por um salário mínimo e o aluguel de um cômodo onde vive sozinho, Lee recebe inerte a notícia da esperada morte de seu irmão Joe (Kyle Chandler). O protagonista é imergido em um grau de responsabilidade que quer evitar quando descobre que tem que assumir a tutela de seu sobrinho Patrick (Lucas Hedges), um adolescente de 16 anos. A partir daí, ambos têm que lidar com uma reaproximação forçada, mas necessária, de uma família desestruturada que acabou de perder seu último pilar.
Kenneth Lonergan, que dirige e escreve o longa, tem total controle da atmosfera sóbria e naturalista que propõe. Alguns diálogos soam até como improvisos em determinadas cenas, permitindo que a dupla de atores descubra seu personagem e o do outro gradualmente. Esta “química” está longe de ser perfeita, e por isso mesmo traz uma verdade intrínseca que facilita o envolvimento e empatia do público. O diretor evita as armadilhas do sensacionalismo dando aos personagens um arco dramático próprio que se sobrepõe à morte do ente querido, poupando-nos de cenas constrangedoras de choro exacerbado – muito presente em outras obras semelhantes – mas nunca tratando o assunto com desdém.
A cidade de Manchester não está no título à toa. O clima constante de neve que rodeia os personagens serve como expansão da aparente frieza destes. Patrick faz questão de não romper sua pacata rotina de namoros e ensaios com a banda, procurando se divertir com os amigos sem precisar discursar sobre a importância do pai em sua vida. Já Lee tenta resolver a indesejável tutela para retornar ao seu infeliz cotidiano em Boston, a única coisa que ele ainda consegue suportar depois de trágicos eventos de seu passado.
A montagem de Jennifer Lame chama atenção para si, não pela artificialidade, mas por estar sempre à serviço da narrativa. A editora imprime um ritmo pouco convencional, mas eficiente na progressão da história. Desde os súbitos cortes rápidos que antevêem uma ação inusitada de Lee na delegacia até a memorável sequência que intercala presente e passado, contando uma história à parte sobre Lee, são exemplos da paciência e da pontualidade de Lame em nos revelar quem são os personagens com os quais somos lançados a conviver por mais de duas horas de filme.
Manchester à Beira-Mar nos mostra uma maneira diferente de encarar o luto. Não é um filme apenas sobre família e tragédia, mas sobre como pode ser difícil perdoar e conviver consigo mesmo. A vida real não nos dá tempo de encerrar um ciclo após o outro, as pessoas não têm o luxo de resolver um problema de cada vez. Lonergan entende isso e transpõe com honestidade um pouco desta complexidade humana em uma história intencionalmente pouco rebuscada, mas de poderosa capacidade conectiva.



