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‘EU, DANIEL BLAKE’ – CRÍTICA

Filme aborda questões sociais sem apelar para o sentimentalismo.

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Quando você lê a premissa de Eu, Daniel Blake, não é difícil associá-lo a um daqueles filmes europeus de drama inspirado superficialmente em fatos que é a cara do Oscar, mas ninguém tem paciência pra ver porque é muito tedioso. Felizmente, este não é o caso aqui.

Acompanhamos a trajetória do personagem título, interpretado por Dave Johns, um carpinteiro de meia-idade que sofre um ataque cardíaco e precisa conseguir um apoio financeiro do Governo enquanto se recupera para retornar ao trabalho. Durante esse processo, ele acaba conhecendo Katie (Harley Squires), uma mãe solteira de dois filhos em uma situação financeira ainda mais grave, que luta para não virar uma moradora de rua.

O diretor Ken Loach, já conhecido por suas obras político e socialmente engajadas, nos entrega uma história realista e emocionante, mas sem ser piegas nem sensacionalista, sempre mantendo a leveza e o bom humor. Alguns espectadores podem comparar o filme ao sucesso de Hollywood À Procura da Felicidade pela similaridade temática, mas diferente deste, o longa europeu em questão é mais reservado quanto a ferramentas óbvias para fisgar o público, como uma trilha sentimental ou cenas exageradamente dramáticas.

O caráter naturalista da narrativa que Loach emprega e o roteiro didático e bem estruturado de Paul Laverty caminham juntos para fugir dos estereótipos, mas sem ficar alheios ao drama dos personagens. A fotografia de tons pastéis de Robbie Ryan e sua câmera quase imparcial mantêm a distância emotiva necessária para deixar a história fluir por conta própria, como se ela fosse tão real e rotineira que não precisasse de ferramentas externas para ser sentida genuinamente pelo público.

O público se torna cúmplice e amigo de Daniel Blake, torcendo pelo sucesso do personagem, mas nunca sentindo pena deste. As tentativas frustradas de se conseguir direito ao Subsídio de Emprego e Apoio revelam não só a ineficiência do sistema previdenciário britânico como suas contradições. Um dos personagens aponta que esse labirinto burocrático não é apenas um problema funcional, mas há um verdadeiro plano político em fazer com que as pessoas desistam de correr atrás de seus direitos, vencê-las pelo cansaço. Isso reteria os gastos com uma mão-de-obra de idade avançada, que teoricamente não produz tanto quanto a jovem, mas em compensação geraria uma grande queda na qualidade no trabalho por falta de experiência.

Tais discussões ficam implícitas no enredo, mas Loach tem o cuidado de não se aprofundar em uma narrativa meramente político-social, sempre mantendo o foco nos personagens, suas relações e suas rotinas. Um mero azulejo quebrado no banheiro pode fazer uma pessoa desabar, enquanto uma mera pichação de muro pode representar a mais autêntica forma de resistência.

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