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ATÉ O ÚLTIMO HOMEM – CRÍTICA

Drama de guerra baseado em fatos se rende ao sensacionalismo barato.

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hacksaw-ridge-ate-o-ultimo-homem-posterMel Gibson é um dos melhores exemplos de atores igualmente reconhecidos por seus trabalhos atrás das câmeras. O estilo realista e visceral do diretor nos rendeu excelentes obras como o já clássico Coração Valente (1995), o polêmico A Paixão de Cristo (2004) e o eletrizante Apocalypto (2006). Dez anos após este último longa, Gibson retorna à direção em Até o Último Homem. O filme que acompanha a história real de Desmond Doss (Andrew Garfield), um médico da Segunda Guerra que tenta encontrar seu lugar no exército com ideais pacifistas de não portar armas, apenas salvar vidas.

Nos primeiros minutos de projeção, já podemos perceber uma rendição de Gibson à padronização dos chamados “filmes de Oscar”. Um trauma de infância, uma família problemática, um amor obsessivo à primeira vista, uma personalidade amorosa para com todos ao redor, etc. A interpretação de Andrew Garfield é compatível com o personagem e até seu overacting usual está mais contido. O problema é a abordagem que se dá ao protagonista, transformando-o em uma espécie de Forrest Gump enfadonho e menos carismático, na tentativa de glorificar sua áurea de bom moço.

O primeiro ato se arrasta em uma estrutura narrativa formulaica, recheada de diálogos clichês com falas como “você é a mulher mais linda do mundo” e “você é diferente dos outros homens”. O roteiro coescrito por Robert Schenkkan e o próprio Garfield não apresenta nenhum interesse criativo, parecendo antiquado como o enredo de um romance brega dos anos 90.

A sequência do campo de treinamento pode entreter o espectador casual, mas soa como uma paródia de Nascido para Matar para os mais atentos. Os coadjuvantes são apresentados com apelidos, fazendo-nos imaginar uma provável relação de cumplicidade entre os membros do pelotão e uma tardia, mas ainda necessária, empatia do público. Porém, os apelidos são apenas palavras soltas e, com uma ou duas exceções, não há conexão com personagens secundários, deixando o público preso a um protagonista chato, apesar dos nobres ideais que carrega.

A mão de Gibson deixa apenas se guiar pela história sem nenhuma personalidade, demonstrando sua assinatura apenas nas memoráveis cenas de batalha que chamam atenção puramente pelo espetáculo. Numa súbita percepção de que toda a pieguice anterior talvez tenha sido uma intencional maneira de contrastar o mundo fora e dentro da guerra, somos tomados por uma esperança de que o diretor tenha sido mais esperto do que nós e realmente queira dizer algo além do óbvio, escondendo uma carta na manga como um inusitado discurso sobre a guerra e as maneiras de encará-la. Porém, este pensamento é logo castrado quando nos deparamos com Doss correndo em câmera lenta em meio a explosões enquanto carrega nas costas um colega ferido.

Este sensacionalismo se repete incansáveis vezes mais em qualquer ato de bravura do protagonista, sempre enebriado por uma trilha tão genérica quanto triunfante. Como se não bastasse, a abordagem da guerra é reducionista e unilateral, mocinho e bandido. Há uma vilanização dos japoneses de um modo totalmente desnecessário para a história que se quer contar.

Após um final toscamente metafórico, o resultado de uma boa história com bons atores e um bom diretor acaba sendo superficial e decepcionante. Provavelmente, a melhor coisa que o longa tem a oferecer é o prólogo, com breves depoimentos reais das pessoas que viveram aquela história.

nota-4

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