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UMA DOBRA NO TEMPO – CRÍTICA

Longa da Disney decepciona com enredo simplista e falta de personalidade.

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Uma Dobra no Tempo é um livro de fantasia lançado em 1962 pela escritora americana Madeleine L’Engle. A obra já havia ganhado uma adaptação em live-action para televisão em 2003 pela Disney, e agora retorna com uma nova versão para os cinemas pelo mesmo estúdio.

A história acompanha a família Murry, cujo pai (Chris Pine), um ambicioso físico, desaparece misteriosamente, deixando sua mulher (Gugu Mbatha-Raw) e seus dois filhos, Meg (Storm Reid) e Charles Wallace (Deric McCabe). Após alguns anos, a dor da perda ainda acompanha a família, até que as crianças conhecem três exóticas mulheres, a Sra. Queé (Reese Witherspoon), a Sra. Quem (Mindy Kaling) e a Sra. Qual (Oprah Winfrey), que dizem atender a um misterioso chamado que pode ser de seu pai. A partir daí, Meg, Charles e seu amigo Calvin (Levi Miller), partem em uma aventura pelo universo à procura do Sr. Murry.

A premissa, apesar de não muito elaborada, é compreensível considerando a época, o gênero e o público-alvo aos quais a obra original se cabe. Porém, quando transposta para um filme contemporâneo sem as devidas adaptações, ela soa preguiçosa e sem sentido, deixando o espectador simplesmente jogado nessa aventura que ele nem sabe se quer embarcar. Jennifer Lee e Jeff Stockwell escrevem um roteiro sem preocupação com o potencial épico da história, tratando os mais absurdos conceitos fantasiosos como algo superficial e de fácil acesso, como a capacidade de viajar interdimencionalmente através da força do pensamento, definida como “tesserar”.

Havia uma expectativa grande em relação à direção de Ava DuVernay, que realizou Selma, drama baseado em fatos indicado ao Oscar em 2015. Porém, a cineasta não demonstrou o mesmo talento no gênero de fantasia infanto-juvenil, desatenta às peculiaridades dos personagens e da estética da obra. As três entidades nunca parecem reais, parecendo apenas colagens no ambiente, o que prejudica a crença no lúdico, algo fundamental na narrativa, inclusive para os próprios personagens mirins. A Sra. Qual, por exemplo, que se manifesta como uma gigante, é apenas algo passível de admiração pelas crianças, sem que estas tenham uma interação mais orgânica em termos físicos, o que poderia render boas cenas de humor e intimidade entre os personagens, aconchegando melhor o espectador que em um primeiro momento foi lançado à estranheza sem laços afetivos.

Esta falta de conexão física e afetiva é agravada pelos efeitos visuais quase cartunescos, muitas vezes lembrando produções de baixo orçamento da Disney Channel. Mesmo em uma determinada cena em que as casas de uma pequena cidade se dobram, com o design de som muito bem empregado para dar esta concretude que falta ao ambiente na maior parte do longa, os efeitos ficam em segundo plano e duram pouco, perdendo a oportunidade de chamar atenção do público com algo visualmente atrativo e particular.

A edição de Spencer Averick carece de timing cômico. O humor, que já é fraco, é sabotado por cortes equivocados do montador, que por sua vez fica refém dos vários e desnecessários planos em close empregados por DuVernay. O ator e comediante Zack Galifianakis, que interpreta outra entidade em um lugar específico do Universo, se esforça para arrancar algumas risadas do público durante sua breve aparição, em diálogos intencionalmente cômicos, mas absurdamente mal escritos.

Em meio a tantas falhas, a única coisa realmente boa do filme é seu elenco. Infelizmente, os atores não tiveram oportunidade de se destacar, sendo reféns de diálogos pobres em uma trama clichê. O único que brilha é o ator mirim Deric McCabe, que desde o começo demonstra uma intensidade única se comparado a seus colegas de elenco, roubando totalmente a cena em um determinado momento da história.

Com um trailer que prometia uma fantasia épica com personalidade estética, Uma Dobra no Tempo entra pro infame hall dos filmes mais esquecíveis da Disney. Neste grupo, também estão as versões em live-action de Cinderela e A Bela e a Fera, o que nos faz pensar que atualmente a Disney só tem algo mágico a oferecer nas produções de estúdios que adquiriu como Pixar e Marvel.

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