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TRAMA FANTASMA – CRÍTICA

Longa encerra a carreira de Daniel Day-Lewis com elegância.

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Obsessão. Geralmente uma resposta à carência, desilusão ou falta de sentido na vida, serve como uma válvula de escape do indivíduo para seus anseios e afetos acumulados, que encontram em algo ou alguém sua derrocada em forma de devoção incondicional. Isto é o que guia os personagens de Trama Fantasma, filme de Paul Thomas Anderson, indicado a seis Oscars.

Em seu último trabalho como ator, Daniel Day-Lewis interpreta o famoso estilista Reynolds Woodcock, almejado pelos maiores nomes da alta classe social. No auge de sua carreira, Woodcock está mais focado em seu trabalho do que nunca, auxiliado por sua fiel irmã Cyril (Lesley Manville) e uma série de funcionárias. Isso requer um nível de dedicação que consome toda a vida do estilista, que estipula regras cotidianas alimentícias, de horários e de convivência que vão desde a forma de cozinhar cogumelos ao silêncio durante o café da manhã.

Eis que por acaso, Woodcock conhece Alma (Vicky Krieps), uma garçonete imigrante cujas formas físicas e áurea ingênua o encantam. Ambos iniciam uma relação de necessidade profissional e afetiva um do outro. Mas Alma não é uma mulher submissa aos caprichos do estilista. Ela questiona suas regras, sua frieza, sua arrogância, seus segredos, algo que nenhuma de suas modelos ou clientes ousa fazer. A partir disso, acompanhamos o envolvimento de dois personagens geniosos e infelizes lutando por cada fio de possibilidade juntos, tentando conviver de forma estável, embora nem sempre saudável.

Woodcock costuma esconder palavras e frases no forro de seus vestidos. Um pedaço seu em cada obra, tornando-a única. Uma forma de libertação da mente e do espírito pelo fruto de seu trabalho. Uma forma de dizer ao mundo que ali existe algo além da costura. Existe um ser humano desamparado e encoberto em falsa segurança, como seus dizeres recobertos pelo tecido.

Apaixonada por essa tristeza velada, Alma reconhece sua importância e não se deixa abalar pela resistência de todos ali. Desde a protetora Cyril, que prefere manter a rotina do irmão para o próprio deste, até socialites que enxergam em Alma apenas uma jovem má educada sem destaque entre as funcionárias da Casa Woodcock. Alma está disposta a tudo para merecer seu lugar na casa e na vida de Reynolds, pois pela primeira vez ela se sente realmente desejada.

O excelente design de produção de Mark Tildesley e o figurino de Mark Bridges, por mais que sejam admiráveis pela sutileza e precisão, não sequestram a atenção para si em detrimento dos dramas humanos. O ambiente aqui não define as pessoas, mas são reflexos destas. Todos os medos e desejos de Woodcock estão convertidos em beleza e formalidade. Anderson entende isso e não se deixa levar pelo glamour inerente à época e ao ambiente que retrata, mantendo a narrativa intimista com a câmera próxima ao casal protagonista, valorizando as atuações.

O talentoso músico Johnny Greenwood, guitarrista da banda Radiohead, tem sido uma ótima parceria de Paul Thomas Anderson. O diretor já realizou videoclipes da banda de Greenwood e este, por sua vez, tem criado a trilha sonora dos últimos filmes de Anderson. Aqui, a trilha tem bastante participação narrativa, sem soar invasiva. O músico opta por um caráter clássico, combinando com a época e a vida social dos personagens, mas sempre prezando por tons melódicos que intrigam, como se algo estivesse fora do lugar ou funcionando de modo não convencional. Desse modo, Greenwood transmite a constante tensão psicológica do relacionamento do casal, mesmo nos momentos de aparente calmaria.

Woodcock é obcecado por seu trabalho. Alma é obcecada por Woodcock. Ele faz dela um afluente para sua correnteza de sentimentos mal trabalhados, mas nunca esquecidos, que até então só desaguavam na foz de sua profissão. Sua posição “inabalável” reconhece um leito de descanso no colo da amada. Um completa o outro em um jogo de possessão e obsessão se traduz no mais puro amor. Estranho, mas livre de convenções sobre a forma que deve tomar. Com perdão do trocadilho, é como se Woodcock encontrasse uma nova “alma” para seguir em frente com novas possibilidades de experiências e casualidades.

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