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‘THE CLOVERFIELD PARADOX’ – CRÍTICA

Terceiro longa da franquia tem premissa instigante, mas perde a oportunidade de surpreender.

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Enquanto as maiores franquias do cinema seguem a tendência de conectar uma grande história entre todos os filmes, algumas vezes produzindo derivados que formam um universo estendido, Cloverfield vai por um caminho diferente. O primeiro longa, Cloverfield – Monstro, segue a estética de found-footage, algo já bem saturado na época em que foi lançado. Entretanto, o mistério e a tensão que permeia a atmosfera, somado ao bom desenvolvimento da empatia em relação aos personagens, não só ajudou a resgatar o subgênero de monstros gigantes no cinema, como também pôs os nomes do produtor J.J. Abrams, do diretor Matt Reeves e do roteirista Drew Goddard em evidência.

O longa seguinte foi produzido em segredo e conseguiu despertar o interesse dos fãs do filme original, que de alguma forma ainda o guardavam na memória depois de oito anos sem notícias sobre uma continuação. O mais curioso é que Rua Cloverfield, 10 não seguia uma ideia convencional de sequência. A estética, os personagens, a história e o tom narrativo eram completamente diferentes da película anterior, sugerindo uma espécie de série antológica, com histórias individuais se passando no mesmo universo. Apesar da bilheteria mediana, a obra agradou os críticos e convenceu os fãs a embarcarem na proposta.

Isso foi o bastante para justificar o terceiro filme da franquia, cujo lançamento se deu de forma mais estranha do que o do segundo. Mesmo sendo anunciado com antecedência, Cloverfield – God Particle sofreu um ano de atraso, e em vez de estrear nas salas de cinema, foi repentinamente lançado na plataforma de streaming Netflix, com um novo título: The Cloverfield Paradox. Mais uma vez, somos apresentados a outros personagens e à outra história, embora esta tenha uma conexão direta com o primeiro filme, passando-se paralelamente a este.

Seguimos uma equipe de sete astronautas de várias partes do globo que trabalham durante meses em uma estação espacial. Sua missão é fazer funcionar um acelerador de partículas que irá produzir energia grátis para todo o planeta. Algo de errado acontece e a equipe perde contato com a Terra, inclusive visualmente. A partir daí, estranhos eventos começam a acontecer dentro da estação, enquanto a Terra experiencia um ataque de algo inimaginável.

O roteiro de Oren Uziel é assertivo em imprimir uma atmosfera de mistério durante o primeiro ato. As bizarrices dos acontecimentos promovem e mantém o interesse do espectador. Porém, tão logo o físico alemão Schmidt (Daniel Brühl) comece a especular sobre a causa de tais eventos, eles perdem todo o sentido. Com exceção do desaparecimento da Terra e do surgimento de uma nova integrante da equipe, a engenheira Jensen (Elizabeth Debicki), não há um padrão de coerência entre as explicações dadas e a natureza dos estranhos acontecimentos.

O segundo ato se desenrola como um terror sci-fi genérico, com a equipe tentando resolver os mistérios e retornar à normalidade enquanto correm perigo de vida. As referências à franquia Alien e ao clássico 2001 – Uma Odisséia no Espaço são claras, óbvias e cansadas. O instinto de sobrevivência que tanto marcou o primeiro longa não se ecoa aqui. A claustrofobia e a tensão do segundo, também não se fazem presentes. Em meio a um caos pouco justificado, Mundy (Chris O’Dowd) é um alívio cômico fora do lugar, Monk (John Ortiz) faz um médico brasileiro totalmente descartável e Volkov (Aksel Hennie) é o típico fanfarrão feito para você odiar e não se importar caso algo de mal aconteça a ele. A personagem de Gugu Mbatha-Raw, Hamilton, é a única realmente interessante e com um arco a se explorar.

A direção de Julius Onah é competente ao evidenciar a mescla de sentimentos em cada personagem, tentando não subestimar o impacto de cada situação, mas fica refém do roteiro pouco criativo de Uziel em termos de enredo. Nessa falta de personalidade narrativa, o design de produção de Doug J. Meerdink se destaca pelas cores e formas que emprega à estação espacial, aos uniformes e aos utensílios, lembrando a organicidade e simplicidade de Lunar, outra ficção-científica que toma o mistério como premissa.

Ironicamente, o filme mais incógnito e ousado da franquia Cloverfield oferece apenas uma premissa com potencial forte e desenvolvimento fraco. A inventividade e a desenvoltura dos filmes anteriores não se sustentam aqui. Em vez de abrir novas possibilidades, a história apenas fecha o ciclo em sua origem, fazendo-nos pensar que uma sequência direta de Rua Cloverfield, 10 seria bem mais promissora.

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