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ROMA – CRÍTICA

Alfonso Cuarón nos conduz com maestria em um drama íntimo e grandioso.

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O mexicano vencedor do Oscar de melhor direção em 2014 por Gravidade, Alfonso Cuarón, já é bastante conhecido por sua forma de produzir cinema. Se existe alguém que entende que a técnica tem que ser usada em benefício da arte, e não o contrário, é ele mesmo. Cuarón possui uma sensibilidade e domínio de câmera tão impressionantes e únicos que é quase impossível não se sentir imerso em sua narrativa. Existe uma beleza em seu trabalho que merece ser admirada e estudada.

Em Roma, seu primeiro filme produzido e lançado especialmente para o mercado de streaming, ele leva esse domínio ao limite. Aqui ele assina, direção, roteiro, edição e direção de fotografia. É praticamente um verdadeiro monopólio, onde ele desfila todo o seu talento para o nosso deleite e reflexão. Sim, reflexão. E nesse ponto é impossível não lembrar do trabalho do mesmo em Filhos da Esperança. Mais uma vez ele apela para a nossa consciência da maneira como lhe é peculiar. A sensação é de que ele nos pega pelo braço e diz: senta aqui, precisamos muito conversar sobre “isso”. O “isso” em Roma nos é muito familiar e felizmente têm sido muito debatido na atualidade: O sofrimento da mulher.

O roteiro se passa nos efervescentes dias do início da década de 1970 no México. Cuarón nos coloca dentro do cotidiano de uma família abandonada pelo seu patriarca e provedor. Srta. Sofía é a esposa trocada por uma amante. E também temos Cleo, a governanta que é muito amada por todos da casa, principalmente pelos quatro filhos do casamento que foi desonrado. O dilema de Cleo é de ter engravidado do namorado, que por sua vez quando descobre a gestação, também a deixa à própria sorte.

Ambas vivenciam as angústias, dores e agruras de situações traumáticas causadas pelo rompimento com seus respectivos companheiros. Nesse ponto as mesmas vivenciam também uma fantástica sororidade. É diante da dor que elas encontram forças em laços fraternais que até então pareciam estar em dormentes. Um detalhe de grande relevância e que precisa ser entendido é que esta é praticamente uma obra semi-biográfica, já que Cuarón se inspirou em sua própria infância quando da escrita do roteiro.

Ele filma estes eventos quase sempre em planos gerais, abertos, tentando nos manter como observadores no canto da sala onde uma mãe chora, ou fazendo-nos apreciar a chuva de granizo que cai sobre as crianças que brincam. Mas quando se utiliza de um close, ou outro enquadramento mais fechado, é como se ele nos puxasse de vez da cadeira onde estávamos desconfortavelmente sentados e nos colocasse cara a cara com o sofrimento de seus personagens. Sem falar no resplendor que é a fotografia em preto e branco e som cristalino do Dolby Atmos.

Os destaques do elenco, como não poderiam deixar de ser são, Yalitza Aparicio, interpretando Cleo, que pouco fala durante os 132 minutos de projeção, mas o seu olhar transmite todos os sentimentos e além; e Marina de Tavira, que encarna a Srta. Sofía, ela completa com louvor essa dupla de mulheres que com certeza já está guardada no coração de muitos cinéfilos.

O filme ainda aborda as grandes revoltas estudantis daquele mesmo período turbulento. Porque com Cuarón não tem essa de falar de uma coisa apenas. Uma das marcas registradas do diretor mexicano são os seus planos sequências. Temos diversos e um mais lindo e incrível do que outro.

Agora só nos resta agradecer a Netflix por ter nos agraciado com esta obra prima, que conquistou o Leão de Ouro no Festival de Veneza e que com certeza já está entre os melhores lançamentos de 2018. Roma não é apenas uma obra fenomenal, é acima de tudo uma obra fundamental, necessária e urgente. 

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