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PACARRETE – CRÍTICA

Tragicomédia cearense encanta com a história de uma excêntrica bailarina.

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Toda cidade do interior nordestino que se preze precisa ter aquela figura folclórica famosa. Seja pela sua excentricidade, seja pela vestimenta ou seja até por alguma dose de insanidade, esses personagens enchem o imaginário popular com diversas histórias ou fábulas. Pacarrete, que é um filme inspirado em fatos reais, trata exatamente de uma dessas personagens.

Interpretada brilhantemente pela experiente Marcelia Cartaxo, Pacarrete é uma professora de balé que, na velhice, deixa Fortaleza para cuidar de Chiquinha, sua irmã mais velha que vive em Russas, cidade do interior do Ceará. Mas nenhum artista abandona completamente a sua arte. E a arte é algo vital para a nossa heroína. Sim, porque o longa cearense, além de todo o folclore, mostra também que viver a arte em uma sociedade embrutecida e que não valoriza a cultura é acima de tudo um ato heroico.

Mesmo tendo deixado a capital cearense e feito o caminho de volta para sua cidade natal por um motivo muito nobre, ela não abandonou o seu desejo por dançar, tocar seu piano, ouvir clássicos da música, mesmo que bem a sua maneira. E a maneira de Pacarrete passa ao largo do lugar comum. Ela transforma literalmente a sua calçada em palco, desfila pelas ruas da cidade com seus figurinos e chapéus diferenciados, usa palavras do francês em quase todas as conversas, insiste em colocar um número de balé no meio de uma festa de forró no aniversário da cidade e não leva desaforo para casa, seja lá de quem for! Tudo isso com todo o bom humor característico do Ceará.

E em quase toda a sua projeção temos essa comédia carregada com jeito cearense de ser. Mas Pacarrete ao meu ver é uma tragicomédia. E é em seu momento trágico onde ele se torna mais tocante. Desnudando por completo a sua personagem, expondo as entranhas da solidão, da velhice e de sua luta, de certa maneira inglória, por mais sensibilidade e educação. Outros grandes destaques no elenco são João Miguel, que dá vida ao melhor amigo da protagonista, Zezita Matos, que vive sua irmã, e Soia Lira, que vive Maria, a ajudante da casa.

O roteiro e também toda a parte técnica são um verdadeiro primor. A trilha sonora é praticamente um personagem do filme, indo da música clássica até Tina Turner. Não á toa, essa produção foi vencedora de oito Kikitos no Festival de Cinema de Gramado e tem sido destaque em outros festivais pelo mundo.

Allan Deberton mostrou em sua estreia no mercado cinematográfico um grande talento para direção. Seja na maneira clássica de filmar, na sua direção de atores, o olhar sensível e a precisão da transição de uma camada para outra. A escolha de contar uma história de sua cidade natal e filmá-la na mesma, já mostra o coração e a sensibilidade que este profissional possui. De Russas para o mundo, ele ainda terá muitas outras ótimas histórias para nos apresentar.   

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