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O FAROL – CRÍTICA

Thriller é um conto claustrofóbico e inebriante que extrai significado do isolamento humano.

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Em seus momentos iniciais, O Farol se dedica à névoa, ao silêncio dos personagens e à escuridão. O desembarque de Ephrain Winslon (Robert Pattinson) e Thomas Wake (Willem Dafoe) na ilha que lhes servirá de lar e posto de trabalho pelas quatro semanas seguintes transcorre ao som do quebrar das ondas do mar nas encostas rochosas, ao piar estridente das gaivotas, ao soprar incessante do vento, ao retumbar dos trovões da tempestade que cai, ao uivar ensurdecedor de um navio próximo. A poucos metros dali, ergue-se a estrutura que batiza o projeto.

Cabe à cinematografia complementar a atmosfera ominosa que dará o tom da obra. No comando de seu segundo longa-metragem, Robert Eggers – que estreara na direção com o provocativo A Bruxa – retoma parceria com o diretor de fotografia Jarin Blaschke para, em conjunto com as equipes responsáveis pelo design de produção, figurinos e de efeitos sonoros e trilha musical (aliás, o desenho de som do filme é impecável e mereceria toda uma análise à parte), criar um ambiente insular de fins do século 19 predominantemente claustrofóbico e opressivo.

Rodado em um preto e branco granulado com alto contraste e em uma razão de aspecto que literal e simbolicamente encaixota os atores no quadro, o filme rapidamente se estabelece como um exemplar de cinema expressionista, buscando referências visuais e temáticas características daquela vanguarda artística: a instabilidade e disfunção psicológica dos personagens; o jogo de luz e sombras que ora oculta, ora revela detalhes dos cenários; a estrutura angular e por vezes pontiaguda das arquiteturas; o sentimento perene de que algo terrível está a ponto de acontecer – ainda que “nada” ocorra ou que a fonte da tensão esteja evidenciada.

E, de fato, assistir à O Farol é uma experiência sensorial. Pois aqui, o sentir vale tanto quanto compreender os detalhes no desenrolar da trama que envolve os faroleiros Winslon e Wake – que acredito não terem o sobrenome iniciado com a mesma letra por acaso (lembram-se do William Wilson de Allan Poe?) –, a motivação de cada um para com suas tarefas diárias e a relação que ambos estabelecem não apenas com o (suposto) mistério envolvendo a sinalização luminosa, mas entre si.

Assinado por Robert Eggers e seu irmão Max (o estreante da dupla), o roteiro transita com eficácia entre o horror terreno, o suspense sobrenatural – e, com boa vontade, até a ficção científica –, contando com lapsos de humor e de (extrema) violência que permitem leituras diversas, sendo raras as vezes em que “fecha” caminhos para “indicar” que rotas o espectador deve seguir. Exemplo: se em determinado momento uma revelação sobre o passado do faroleiro novato (Patterson) vem à tona para colocar em perspectiva as alucinações que este vem tendo, em outro uma discussão leva o faroleiro experiente (Dafoe) a questionar a própria natureza do companheiro, numa sacada inteligente que dialoga com o espectador na medida em que a dúvida a respeito da existência física dos personagens já ficara estabelecida – afinal, um indivíduo conhecido como Wake pode soar bastante sugestivo, não?

Demonstrando controle absoluto sobre a história que deseja contar (e de como contá-la), Robert Eggers compõe planos de uma beleza sombria e não cede aos impulsos do susto fácil, optando por construir tensão através da atmosfera e dos enquadramentos e não por fazer criaturas saltarem e/ou gritarem na frente da câmera (leia-se: da tela) para “despertar” um público desatento. Nesse sentido, o diretor manteve-se alinhado ao que se viu em A Bruxa, tendo, no entanto, desenvolvido apuro e amadurecimento narrativo, estético, visual e sonoro – o que lhe rendeu o reconhecimento no Festival de Cannes deste ano, num prêmio concedido pela crítica.

Igualmente responsáveis pela qualidade do longa, Robert Pattinson e Willem Dafoe entregam atuações intensas e singulares tanto física quanto psicologicamente, o que lhes gabarita a serem indicados na temporada de premiações do ano que vem. Pattinson incorpora um sujeito a princípio lacônico e sisudo, mas que aos poucos (e conforme seu passado é descortinado) vai dando vazão à personalidade de alguém violento, colérico e imprevisível cuja escalada psicótica leva a um clímax surrealista. Assumindo o protagonismo do projeto, o ator compõe um ser complexo cujos tormentos nunca são esclarecidos, precisando que o espectador seja o responsável por ordenar este quebra-cabeça.

Já o veterano Dafoe parece cada vez mais a vontade (se é que possível) ao representar indivíduos que se fazem transmitir pelo olhar (e como os diretores amam enquadrar seu rosto), pelo sorriso (que utiliza com magistral ambuiguidade) e pelo modo de falar (mais do que pelo o que fala). E não deixa de ser ao mesmo tempo fascinante e aterrorizante notar como o ator manipula bem o sadismo de seu personagem enquanto patrão ao explorar tanto a mão-de-obra quanto a força imanente à juventude de seu subordinado.

Extraindo significado do isolamento no qual posiciona suas peças, O Farol é, enfim, um conto de horror ébrio, hipnótico e sufocante capaz de aguçar e atormentar os sentidos e de provocar interpretações variadas quanto a sua existência enquanto obra de arte.

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