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NÓS – CRÍTICA

Novo filme de Jordan Peele é intrigante e perturbador.

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Nós (Us, 2019) é o segundo filme do diretor Jordan Peele que, apesar de estar apenas iniciando na carreira, já se mostra muito talentoso. O seu primeiro trabalho, “Corra!” (Get Out, 2017) foi indicado a 4 Oscar (Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Original e Melhor Ator) e ganhou na categoria de Roteiro Original. Foi um dos meus filmes preferidos de 2018 e, se você não viu, deveria assistir agora!

Felizmente, em Nós, Jordan Peele repete a dose e entrega um filme muito, mas muito acima da média. Aqui ele dirige, escreve e produz o longa. Portanto, podemos dizer que é um filme bem autoral. A sinopse parece ser bem bobinha, de tão simples. Uma família vai passar uns dias na sua casa de praia e, de repente, eles começam a ser perseguidos violentamente por outra família que, estranhamente, são exatamente iguais a eles, como se fossem clones quase iguais. 

A partir daí, vemos um excelente filme de suspense, terror, perseguição e com pitadas certeiras de humor. Não posso falar muito sobre a trama pois quanto menos você souber, melhor será a sua experiência no cinema. Assista ao trailer abaixo para ter uma noção melhor do enredo do filme:

Tecnicamente falando o filme é perfeito! A direção do Jordan Peele é precisa e consegue entregar um clima de tensão e medo desde o primeiro segundo. A forma como Jordan dirige os atores e faz o enquadramento de câmera passa a impressão de que algo muito importante está acontecendo fora do plano, nos deixando como que presos, querendo saber mais sobre o que está acontecendo em volta.

A câmera não vai atrás dos personagens. Eles entram no plano naturalmente. O trabalho de edição também ajuda muito nesse sentido, tornando o filme bem fluído e natural, mesmo quando as duas versões dos atores estão em cena. E por falar nos atores…

Todos os atores estão muito bem em seus papéis, mas a protagonista absoluta é a Lupita Nyong’o, que interpreta a mãe da família (Adelaide Wilson). É incrível a quantidade de sentimentos que a atriz consegue entregar, indo desde um olhar traumatizado e melancólico até o bizarro total. Lupita, inclusive, já foi laureada com um Oscar, em 2013, por sua interpretação no filme 12 Anos de Escravidão.

Na pele de Adelaide Wilson ela já impressiona, sempre com uma expressão de trauma, de medo e apreensão. Mas, quando ela encarna a versão “maligna” de Adelaide é que nos surpreendemos positivamente com a sua atuação. Ela entrega alto totalmente bizarro, como um olhar vidrado, uma voz aterrorizante e até um jeito de andar e se movimentar completamente diferente e que ajuda a contar a história.

Nós está sendo vendido como um filme de terror. E o próprio diretor já deixou isso claro em entrevistas. Mas eu, particularmente, classificaria o filme como 50% terror e 50% suspense, pois ele contém elementos destes dois gêneros. Jordan Peele se inspira muito em diretores consagrados, como Alfred Hitchcock (Psicose, 1960) e, principalmente, M. Night Shyamalan (O Sexto Sentido, 1999).

Todos os elementos de um filme de terror estão lá (um começo tranquilo, a apresentação do perigo, cenas de mortes violentas, etc) e Jordan as inclui no filme de forma perfeita. E, como todo bom mestre, ele também sabe subverter todas essas regras. Quando você acha que vai ter algum jump scare, por exemplo, não acontece simplesmente nada. É como se ele brincasse com a nossa cara.

Outro grande mérito da direção de Jordan Peele é o uso certeiro do humor. Nós possui muitas cenas engraçadas, tanto verbalizadas, em especial pelo pai da família (Winston Duke), quanto de situações inusitadas e bizarras que, de tão bizarras, chegam a ser engraçadas. As músicas incidentais também são usadas de maneira engraçada, literalmente arrancando gargalhadas do cinema.

E, por falar em trilha sonora, ela é usada de forma perturbadora. Desde o início a trilha do filme incomoda e serve para nos deixar ainda mais tensos, com exceção das cenas onde a música é usada com o propósito de fazer humor.

De uma coisa você pode ter certeza: nada nesse filme está ali em vão. Ou seja, cada fala, cada enquadramento, cada situação foi colocada ali com um propósito e voltará de outra forma em algum momento do filme. A narrativa é muito bem amarrada e o roteiro muito bem escrito.

E Nós é repleto de camadas, simbolismos, analogias e interpretações. Muito do que aparece no filme não é explicado, cabendo ao espectador elaborar sua própria interpretação do filme. E, acredite, podem haver várias. Algumas falam da dualidade da mente humana, das máscaras que todos nós usamos no cotidiano, da luta interna entre nosso eu “social” e o eu “selvagem” e até mesmo críticas sociais, como a nova política de Donald Trump em relação aos imigrantes. Enfim, este é um filme que deve ser visto mais de uma vez e que vai te deixar pensando ainda muito tempo sobre tudo o que você viu.

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