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MORTO NÃO FALA – CRÍTICA

Aclamado terror brasileiro é um dos melhores filmes nacionais do ano.

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Embora seja um dos gêneros mais populares do cinema, o terror sempre foi marginalizado em produções brasileiras. Até seu maior representante, o cineasta José Mojica Marins, o Zé do Caixão, encontra mais reconhecimento no exterior do que no próprio país de origem. Por anos reservado à produções independentes de baixo custo que, junto com as pornochanchadas, movimentavam o famoso – ou infame, dependendo da perspectiva – polo cinematográfico paulista Boca do Lixo, o terror brasileiro tem encontrado mais espaço nos últimos anos com obras como Quando Eu Era Vivo (2014), O Animal Cordial (2017), As Boas Maneiras (2017) e o mais recente A Sombra do Pai (2018), que levam o gênero mais a sério.

Nesse contexto, Morto Não Fala, que já chamou considerável atenção internacional, insere-se no mercado brasileiro em um período bastante oportuno para o gênero. Acompanhado de O Clube dos Canibais, A Noite Amarela, Histórias Estranhas e Intruso, o longa participa de um importante momento do terror nacional, que se liberta do circuito fechado de festivais e desbrava as salas de cinema de todo o país.

O enredo gira em torno do técnico em necropsia Stênio, interpretado por Daniel de Oliveira. Por algum motivo não revelado, o profissional do Instituto Médico Legal tem a capacidade de se comunicar com os mortos, e costuma manter diálogos informais com os cadáveres que chegam à instituição. No momento em que uma dessas conversas dizem respeito à sua vida pessoal, Stênio se sente no direito de agir da maneira que julga necessário, e sua vida começa a ser atormentada por um espírito que ameaça toda sua família.

Adaptado do romance homônimo de Marco de Castro, o roteiro escrito por Cláudia Jouvin e pelo diretor Dennison Ramalho contextualiza bem as camadas do enredo, estabelecendo a situação do protagonista, suas relações familiares e profissionais, seu caráter e suas motivações. Conhecer Stênio é fundamental para que possamos nos importar com o personagem, mesmo questionando algumas de suas atitudes. Porém, o grande mérito do roteiro é fazer o espectador entender também o lado do espírito. Ramalho, já experiente no gênero, reconhece a importância de trabalhar o aspecto humano da história para além das convenções associadas ao terror. Dessa forma, justifica a presença da entidade, sua ligação com o protagonista e o mal que quer causá-lo.

Daniel de Oliveira, que já provou seu talento e versatilidade em várias obras televisivas e em filmes como Cazuza: O Tempo Não Pára (2004) e A Festa da Menina Morta (2008), aqui expressa bem a personalidade contida e até submissa de seu personagem. Seus momentos explosivos revelam mais desespero e tristeza do que propriamente ira, passando por situações exaustivas até para o espectador. O elenco também conta com nomes conhecidos como Fabiula Nascimento, que destaca a personalidade forte de Odete, esposa de Stênio; Bianca Comparato, conhecida pela série 3% da Netflix e que aqui vive Lara, amiga do protagonista; o experiente Marco Ricca na pele do padeiro Jaime; e as crianças Cauã Martins e Annalara Prates, que atuam muito bem como os filhos de Stênio.

Os efeitos práticos de Marcelo A.M.P. são bastante convincentes, já os efeitos visuais Wildson Chinaglia e Rodrigo Ridolpho deixam a desejar em alguns momentos. A intenção de movimentar apenas a face dos cadáveres enquanto falam, mantendo todo o resto do corpo totalmente imóvel, é compreensível para a ideia que se quer passar e, no geral, são realizados de modo satisfatório. Porém, em algumas cenas específicas, principalmente nos planos de close nos rostos dos mortos, o resultado dos efeitos é artificial. O recorte da face é evidente, e sua iluminação também se difere da fotografia da cena. Apesar disso, a história intrigante e imersiva não é prejudicada por esses momentos pontuais.

Morto Não Fala é um belo presente para o mês de Halloween e já se destaca como um dos melhores filmes nacionais do ano, sendo um grande representante dessa nova onda de terror brasileiro que emerge entre jovens cineastas e encontra o merecido lugar em um circuito abrangente do mercado cinematográfico brasileiro.

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