Inicio Gênero Drama ‘KARDEC’ – CRÍTICA

‘KARDEC’ – CRÍTICA

Cinebiografia capricha no visual, mas peca na construção narrativa.

271
0
COMPARTILHE

Dirigido por Wagner de Assis (Nosso Lar), que também escreve o roteiro juntamente com L.G. Bayão (Irmã Dulce), Kardec é uma obra baseada no livro best-seller de Marcel Souto Maior, que conta a trajetória de transformação de Hippolyte Léon Denizard Rivail, então educador, filósofo, tradutor e discípulo de Pestalozzi em Allan Kardec, codificador, sistematizador e propagador da Doutrina Espírita. Depois de pesquisas severas e metódicas, ele buscou explicação científica para a compreensão do fenômeno das mesas girantes, tão famosas e epidêmicas na Europa de meados do século XIX. Rivail, passa então a estudar os fenômenos através de médiuns em diversos locais e por meio de perguntas idênticas, tabulou as respostas coincidentes o que levou a produção do Livro dos Espíritos e sua conversão ao que passou a ser chamado de Espiritismo.

Esperava-se desta cinebiografia conhecer as entranhas de Kardec, até porque, da maneira genérica como fomos apresentados a ele neste filme, bastava os documentários do YouTube. O que de certa forma causa estranheza, pois o diretor Wagner de Assis, que construiu o roteiro de Nosso Lar, vinha empregando uma forma grandiosa de contar a história, dando um ritmo sempre crescente à narrativa e envolvendo todos os personagens da trama de modo muito cativante.

O período compreendido como foco narrativo do filme apresenta-se disperso, pois nem se concentra nos fenômenos e na evolução dos estudos de Kardec, nem se fixa na resistência por parte da Igreja/Estado, o antagonista diante da propagação do Espiritismo. A trama oscila, sem realmente mostrar a transformação de Kardec, que se dá abruptamente e não dá ao ator Leonardo Medeiros (Kardec) oportunidade de explorar toda a potencialidade de um personagem tão complexo durante um período tão conturbado. Mesmo assim, Medeiros entrega um resultado muito bem construído do homem centrado e obstinado que era Kardec, além da boa química deste com a atriz Sandra Coverloni, que interpreta sua esposa Amélie Gabrielle Boudet. Longe do aspecto amoroso do casal, ela traz o lado de parceira de trabalho e incentivadora dessa nova doutrina que nasce. Ambos entregam um casal de afeto contido e distante, mas inteiramente jungidos a nível de pensamento e idéias.

Kardec tem um ritmo quase arrastado, no qual os demais personagens apenas orbitam sem acrescentar à trama. No entanto, quando se trata de explorar os fenômenos, a contextualização dos mesmos e a sistematização (que deveriam ser o foco do filme), nota-se uma apresentação muito apressada destes fenômenos mediúnicos e dos próprios médiuns envolvidos no estudo, o que acaba não fornecendo estímulo visual para aqueles que pouco conhecem o Espiritismo, e estagnação para aqueles que conhecem e professam tal doutrina. O foco acaba por centrar-se na resistência ao surgimento do espiritismo, quando na verdade deveria nos trazer o Kardec que poucos conhecem. A antagonização estatal é uma consequência secundária.

A ambientação é bem construída, com uma bela fotografia, principalmente nas cenas externas. No entanto, nos momentos indoor, a escuridão domina a tela e tira a um pouco da beleza da construção de época. Apesar da grandiosidade dos planos externos, eles mostram ruas vazias, o que não condiz com o ambiente parisiense da época. Não se percebe a cidade como mais um personagem, mas mesmo assim, a direção de arte teve um cuidado estético muito grande, mantendo todo o filme coeso e apropriado à época. Os figurinos por Rô Nascimento são fiéis e muito bem executados, o que faz com que se mergulhe de fato no século em questão, apresentando um apuro impecável nas peças apresentadas em todos os personagens.

A história da forma como foi entregue ao público não mostrou inovação ao biografar a vida e obra de Allan Kardec. Deixou muitas lacunas a serem preenchidas, apesar da linearidade temporal ter sido respeitada. Não informa ou instiga o público iniciante ou curioso da doutrina, nem busca cativar aqueles que conhecem o personagem. É um filme ok na construção do conhecimento de Allan Kardec, mas a construção narrativa se afasta do sucesso que foi Nosso Lar.

Anuncie no Cinemaginando
Anuncie no Cinemaginando
Anuncie no Cinemaginando