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I AM MOTHER – CRÍTICA

Sci-fi original da Netflix trabalha relação familiar em contexto pós-apocalíptico.

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No gênero de ficção-científica, não é rara a premissa de um futuro distópico. Seja por meio de guerras, doenças, regimes fascistas, destruição ecológica ou vírus zumbi, a visão sobre o futuro da humanidade nas últimas décadas costuma ser pessimista. Entretanto, algumas obras se interessam mais em trabalhar as relações humanas diante de tais condições do que a luta pela sobrevivência por si só.

Em I Am Mother, filme original da Netflix, percebemos um foco na representação de família, como o próprio título já antecipa. Em uma Terra inóspita onde a raça humana está praticamente extinta, um droide é responsável por reconstruir a sociedade em uma estação habitável, garantindo que os novos seres não cometam os mesmos erros que seus antepassados.

O diretor Grant Sputore faz sua estreia em longas de maneira decente, assinando também o roteiro ao lado de Michael Lloyd Green. O primeiro ato sucinto envolve o espectador no contexto do enredo e na atmosfera parcimoniosa da narrativa. É clara a importância que Sputore estabelece na relação entre a Mãe (com voz de Rose Byrne) e a Filha (Clara Ruggard), onde a diferentes origens de cada uma não impedem a troca de afetos, mesmo físicos.

A fotografia de Steve Annis funciona narrativamente. O contraste entre as cores frias da estação e da Mãe com as cores quentes que envolvem os embriões humanos e a Filha antecipa o inevitável conflito que há por vir. A normatização de planos abertos e a economia de close-ups valoriza o design de produção de Hugh Bateup. A praticidade na elaboração dos cenários, assim como o design retangular e cheio de pontos luminosos do droide Mãe, remete às formas e ao funcionamento de computadores caseiros, criando a verossimilhança necessária para a legitimidade das relações afetivas entre as personagens.

Rose Byrne faz um interessante trabalho de voz para a Mãe. Ao mesmo tempo em que humaniza a droide com interjeições e maneirismos de linguagem, mantém uma tonalidade quase invariável que resguarda sua natureza artificial e programática. Clara Ruggard demonstra segurança em seu primeiro trabalho como protagonista, destacando-se mesmo ao lado da oscarizada Hilary Swank, que interpreta a Mulher. A ausência de nomes próprios é outro ponto positivo do roteiro, que dissolve o entendimento das personagens em suas condições individuais.

A personagem de Swank é introduzida na trama para desestabilizar o status quo da estação, produzindo um clima de tensão que gera desconfiança e revela mistérios. Essa atmosfera remete a obras como Ex-Machina e mesmo Dia dos Mortos de George Romero, onde espaços restritos tem um efeito psicológico nocivo aos personagens. Porém, à medida que o roteiro se desvincula do teor pessoal para adentrar uma perspectiva macro do mundo fora da estação, a Mulher se torna apenas uma muleta narrativa para motivar a Filha.

Sputore se livra da estrutura genérica de perseguição “gato e rato”, mas não foge de uma resolução simplista e pouco emocional. O subtexto sobre maturidade, abuso e libertação de vínculos é claro e bem-vindo, mas a desnecessária preocupação descritiva sobre o contexto geral sabota a próprio discurso e culmina em um final evasivo.

O filme apresenta uma proposta relevante, principalmente para um gênero cheio de possibilidades, mas que está começando a se desgastar devido à falta de inventividade de muitos realizadores que o utilizam apenas como ambientação para um enredo genérico. Sputore e Green não colaboram para este desgaste, mas ainda se mostram reféns de elementos populares que pouco acrescentam às suas reais intensões.

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