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GRETA – CRÍTICA

Longa cearense traz Marco Nanini no papel mais íntimo de sua carreira.

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A Mostra Competitiva Ibero-americana do 29º Festival Cine Ceará foi encerrada com a exibição de Greta, filme de estréia do diretor cearense Armando Praça. O cineasta, que tem uma relativa experiência na área em outros cargos, lembra que já participou do festival outras vezes, o que torna a ocasião particularmente emocionante. Como bem menciona Marco Nanini, protagonista do longa, as gravações se deram inteiramente em Fortaleza, evidenciando o caráter de proximidade que obra adquire para grande parte dos envolvidos, mesmo lidando com temas universais.

No longa, seguimos o enfermeiro Pedro (Nanini), que, preocupado em liberar um leito do hospital para sua amiga Daniela (Denize Weinberg), resolve ajudar na fuga de Jean (Demick Lopes), um criminoso ferido que teme pela própria segurança e deseja escapar da instituição. Os dois acabam por desenvolver um relacionamento secreto proveniente do acaso, da troca de favores e de intenções veladas. O enredo é baseado livremente na peça teatral Greta Garbo, Quem Diria, Acabou no Irajá, de Fernando Mello. Uma das várias diferenças em relação à obra original é a transformação da comédia em drama, mas sem prejuízo do humor pontual.

A temática LGBTQ+ é enfática, mas não central. Mais do que a orientação sexual dos personagens, o enredo trata de sonhos perdidos, falta de perspectiva e aceitação pessoal. Numa abordagem claramente intimista, o roteiro de Praça tangencia um estudo de personagem para mergulhar numa discussão sobre finitude e como ela é encarada por setores marginalizados da sociedade, que já são castrados e reprimidos em sua própria existência. A terceira idade, a identidade de gênero e o desvio das leis são os principais elementos que traduzem o distanciamento da normatividade.

Não é a toa que a fotografia de Ivo Lopes Araújo é claustrofóbica. O aspect ratio reduzido, assim como a escolha por planos que enquadram os personagens entre portas, paredes ou janelas, ilustram o sentimento de aprisionamento e inferioridade dos personagens. Neste sentido, o movimento de câmera que desfaz essa ideia na última cena do longa é simbólico, evocando libertação.

A experiente montadora Karen Harley, que já trabalhou em obras reconhecidas internacionalmente, como O Quatrilho e Que Horas Ela Volta?, traz uma estrutura pouco didática que dá foco aos personagens mais do que à história em si. Acompanhamos Pedro, Daniela e Jean à medida que suas personalidades se desdobram em seus próprios passos. As elipses de tempo denotam fluidez narrativa e confiança na imersão do espectador, valorizando o naturalismo diegético.

Marco Nanini está entregue ao personagem. Mais conhecido por seu trabalho na televisão, principalmente na comédia, o ator demonstra segurança e conforto em seu papel mais expositivo e pessoal. A simplicidade e ridicularização do senhor idoso que resguarda admiração e identificação pela famosa atriz Greta Garbo é empregada na linguagem corporal do artista: o cabelo assanhado, o caminhar lento, os trejeitos femininos e o cuidado materno que exibe por seus afetos. Afinal de contas, Pedro não tem nada a perder. Ele está nos últimos anos de sua vida, não tem família e é o principal suspeito de ter deixado Jean sair do hospital. “É a única que eu tenho” – lamenta o personagem em tom conformista e de quase deboche quando questionado pela transgênero Daniela se sua história com o criminoso vale a pena.

Greta é um filme necessário e com temáticas pertinentes, tanto para a indústria cinematográfica local como para o fomento da cultura nacional, que atualmente se encontra ameaçada. Hoje, mais do que em outros tempos, é extremamente importante a valorização de novos realizadores como Armando Praça, que entendem a arte como ferramenta política de expressão social. Pois como alertou Fernanda Montenegro na cerimônia abertura do mesmo festival em que Greta teve sua primeira exibição no país: “o Brasil vai vencer pela arte”.

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