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FAHRENHEIT 451 – CRÍTICA

Nova adaptação do clássico literário tem proposta criativa, mas decepciona pela superficialidade.

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A temperatura de combustão do papel dos livros é de 451 graus na escala Fahrenheit. O escritor americano Ray Bradbury se utilizou dessa medida para intitular seu mais famoso romance: a ficção-científica Fahrenheit 451, publicada em 1953. A obra é frequentemente citada e referenciada na cultura pop, tendo influenciado fortemente o filme Equilibrium e sendo homenageada no título do documentário Fahrenheit 9/11.

A história se passa em um futuro distópico, onde a literatura é estritamente proibida por ser considerada insana e trazer sentimentos de confusão e infelicidade à população. Nesse contexto, acompanhamos Guy Montag, um dos mais disciplinados bombeiros encarregados de encontrar e queimar qualquer livro ainda existente.

A obra de Bradbury já foi adaptada para o cinema nas mãos de um dos mais influentes diretores franceses: Fraçois Truffaut. Embora pareça datado em momentos específicos, o filme de Truffaut é reconhecidamente um clássico do gênero. Traz uma clara influência dos suspenses de seu ídolo, Alfred Hitchcock, além de um estilo de montagem e narração provenientes da Nouvelle Vague.

A nova versão cinematográfica, produzida diretamente para televisão pelo canal HBO e dirigida pelo ainda pouco conhecido Ramin Bahrani funciona mais como uma releitura do livro do que como uma fiel adaptação deste. Enquanto o filme de Truffaut faz um paralelo com regimes políticos ditatoriais, com a interessante ideia de não apresentar uma letra sequer durante o longa, nem mesmo nos créditos iniciais, Bahrani caminha por um viés mais contemporâneo e tecnológico, utilizando a linguagem robótica e segmental da Internet como desvalorização da literatura formal.

Embora o roteiro de Amir Naderi tome grandes liberdades quanto à obra original, a proposta é interessante e mais relacionável com o público atual. Montag (Michael B. Jordan) lembra o estereótipo de jovem convencido do colegial, jogador de futebol americano e praticador de bullying, orgulhando-se de seu trabalho e puxando gritos de guerra com os colegas, pois é a única coisa que sabe fazer, a única verdade que conhece.

Seu superior, Capitão Beatty (Michael Shannon), está prestes a se aposentar e conta com a vivacidade e dedicação de Montag para lhe substituir em seu cargo. Mas após um evento chocante durante uma de suas missões, Montag começa a se questionar sobre o que tem feito e por que o faz. Sua dúvida e curiosidade crescem à medida que conhece a Rebelde informante dos bombeiros Clarisse (Sofia Boutella), com quem compartilha seus receios e aprende um novo lado da história.

O elenco é talentoso, mas não tem muita oportunidade de sair da zona de conforto. Shannon está para vilões caricatos como Will Smith está para heróis carismáticos. Jordan também não consegue dar mais profundidade a seu personagem, sendo sua mudança muito rápida. Apenas Boutella mostra um lado mais diferente de atuação, embora igualmente superficial. Pelo menos aqui, ela interpreta uma cidadã comum, sem nenhum elemento exótico.

Bahrani apresenta potencial em dispor elementos narrativos visualmente, tornando a experiência mais enriquecedora, mesmo que pontualmente. Dois exemplos disso são o corte entre um grande incêndio e Montag ligando o chuveiro; e a cena em que ele está conversando com Clarrisse, onde seu plano é composto apenas por cores quentes, enquanto no contraplano de Clarisse vemos alguns recipientes com água.

Esta preocupação visual não se repete no enredo. A inclinação do Capitão Beatty para a escrita, por exemplo, é apresentada em diversas cenas, trazendo uma nova camada para o personagem que não é trabalhada mais a fundo. Isso não muda em nada suas ações inescrupulosas, tornando um importante elemento do personagem algo descartável em seu desenvolvimento.

Fahrenheit 451 da HBO está longe de ter a mesma qualidade estrutural e narrativa do clássico de Truffaut, mas é corajoso em se apropriar da obra de Bradbury para construir seu próprio estilo. É um filme que se arrisca na proposta, mas não na temática. Mas ainda vale a pena ser visto pelo esforço criativo no trabalho de adaptação.

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