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DOR E GLÓRIA – CRÍTICA

Almodóvar se desnuda enquanto artista na obra mais pessoal de sua carreira.

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“No pain, no gain” é um termo comumente utilizado no contexto de exercícios físicos para motivar os atletas. Traduzido literalmente como “sem dor, sem ganho”, significa basicamente que sem sacrifício, não há vitória. Dor e Glória, de Pedro Almodóvar, trabalha este entendimento no âmbito artístico e emocional.

Antonio Banderas interpreta Salvador, um reconhecido cineasta que se vê acarretado de dores físicas e emocionais nos últimos anos. Enquanto lida com os problemas de saúde à sua maneira, tenta fazer pazes com seu passado.

O teor autobiográfico é evidente nesta que parece ser a obra mais íntima de Almodóvar. Exorcizando seus demônios pessoais, o diretor ilustra resoluções para as questões mal resolvidas com o ex-marido, a relação agridoce com a mãe, a depressão mal administrada, as descobertas sexuais e o cinema como válvula de escape.

E ninguém melhor para dar vida ao seu alter ego do que Banderas, cuja parceria marcou o início da carreira de ambos. Sua premiada atuação é sincera e compreensiva, tornando o protagonista uma pessoa real mais do que apenas plausível.

Antxón Gómez, outro antigo colaborador de Almodóvar, retorna para o design de produção que dá uma personalidade visual única à sua filmografia. As “cores de Almodóvar”, como canta Adriana Calcanhoto, são componentes muito presentes na estética do diretor espanhol. Aqui não é diferente, e Gómez destaca o vermelho em seu simbolismo intrínseco de ambiguidade entre paixão e violência, neste caso traduzidos como desejo e tragédia, remetendo também aos elementos contrapostos – porém, complementares – do título.

É interessante perceber como um diretor tão versátil como Almodóvar, que vai do drama novelesco à comédia pastelão com tanta desenvoltura, ainda cria espaço para amadurecer. Sua escrita é clara e concisa, utilizando as conveniências narrativas não como muleta para desenvolver o enredo, mas enquanto confirmação das características que este assume.

O filme é uma aula de metalinguagem, utilizando-a de forma inesperada e criativa para além do que se estabelece narrativamente. Seu roteiro externamente simples, mas recheado de camadas significativas, vai sendo paciente e deliciosamente desnudado pelo autor, que se redescobre como pessoa em sua arte, permitindo que o público faça parte desse caminho.

Dor e Glória é sensível e extremamente pessoal, mas tão honestamente construído que possibilita uma natural identificação dos expectadores. E estes certamente sairão da sala de projeção introspectivos e concernido quanto às suas próprias questões.

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