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CORINGA – CRÍTICA

Filme brilhante mas, assim como o Coringa, extremamente perigoso.

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Coringa tem a dificílima missão de contar a origem de um dos maiores e mais complexos vilões dos quadrinhos. Embora já tenha tido diversas aparições no cinema, esta é a primeira vez que o personagem ganha um filme solo e que revela a construção da mente deste “palhaço” psicopata e assassino amado pelos fãs de histórias em quadrinhos. O filme é escrito e dirigido por Todd Phillips que, curiosamente, tem como trabalho mais proeminente a trilogia cômica Se Beber Não Case. À primeira vista parece estranho um diretor hábil com a comédia assumir um filme dramático de tamanhas proporções. Mas a escolha logo se mostra acertada. Coringa une o humor e o drama de tal forma que fica impossível dissociá-los.

Para começar, Arthur Fleck, nome de batismo do Coringa, está constantemente gargalhando compulsivamente. Mas não por que ele está feliz. E sim por que ele possui um distúrbio neurológico que o faz rir sem parar em situações de stress e tensão. Mesmo com o personagem rindo, nós não conseguimos fazer o mesmo. Além disso, diversas cenas possuem pitadas de humor negro que nos fazem rir e nos deixam muito mal por tê-lo feito. Assim, o diretor mostra que domina completa a arte da comédia e do drama, subvertendo estes dois gêneros constantemente. Todd Phillips comanda com maestria cada detalhe do filme que, no conjunto da obra, resultam num filme brilhante. Direção, roteiro, fotografia, enquadramentos, trilha sonora… tudo funciona de forma a tornar o filme memorável.

Testemunhamos claramente a construção de cada camanda da psicopatia do Coringa. Arthur Fleck é um homem de meia idade, que ainda mora com a mãe e tem distúrbios mentais. Mas vive em uma cidade decadente, suja e com pouca ou nenhuma moral, onde os habitantes tratam de quebrá-lo pouco a pouco, de pedacinho em pedacinho. Seja o colega de trabalho, o chefe incompreensivo, a assistente social e até mesmo desconhecidos que o agridem sem nenhum motivo. Tudo contribui um pouquinho para aumentar a psicopatia e a mente doentia de Arthur Fleck.

Arthur é muitas vezes enquadrado com algum objeto à sua frente, seja uma grade, uma tela ou um muro. Sempre há algo disputando o protagonismo no plano. Mas quando Arthur Fleck se “transforma” no Coringa, ele aparece em planos abertos e muito à vontade. A fotografia, quase sempre escura e suja, mostra que a mente daquele homem também é obscura e suja. Isso se mostra mais nitidamente quando Arthur está sozinho em casa. As cores também tem o seu papel. O diretor de fotografia utiliza tons mais fortes de azul quando ele está depressivo e tons mais fortes de amarelo quando ele está matando ou planejando algo. Até a roupa do palhaço também denota isso. E, à medida que Arthur Fleck se transforma no Coringa, a trilha sonora vai ganhando forma e ficando mais forte e presente no longa metragem.

Mas, tudo isso mencionado acima não seria nada se não fosse a fabulosa atuação de Joaquim Phoenix, que é um ator brilhante. Desde o memorável Heath Ledger que não víamos uma atuação tão forte e tão sincera do Coringa. O ator emagreceu 23 kg para viver o vilão. Suas expressões faciais e corporais traduzem cada sentimento e são, ao mesmo tempo, horrendas. E a risada característica do Coringa também é construída paulatinamente, de forma que percebemos que ela não pertence àquela sociedade e nem àquele corpo. Pertence ao Coringa.

Resumindo: Coringa é um filme brilhante, muito bem dirigido, muito bem roteirizado, fotografado e com atuações marcantes. Porém, o seu discurso é um tanto quanto perigoso. Isso por que, durante todo o filme, somos levados a sentir pena de Arthur Fleck. E isso é legítimo. Entretanto, quando ele começa a se tornar o Coringa e começa a cometer os seus primeiros assassinatos, somos meio que levados a compreender e perdoar o vilão. Nós meio que validamos essas ações criminosas por causa de todo o sofrimento anterior do personagem. Porém, o filme é muito realista. Todos os problemas mostrados em tela são problemas reais e acontecem diariamente. Pessoas depressivas e sendo excluídas da sociedade, muitas vezes ridicularizadas podem se sentir incentivadas e até mesmo justificadas em cometer atos criminosos e até mesmo em matar pessoas.

A violência, embora não apareça em excesso, é extremamente brutal e realista, com poucos cortes e tudo sendo mostrado explicitamente. Assim, o filme peca em não deixar claro que estamos vendo o surgimento de um criminoso, de um psicopata e que nenhuma de suas ações são válidas ou justificáveis. Pelo contrário, o Coringa é tratado como um herói, tanto pelo povo de Gotham City quanto pelo diretor que, ao escolher um enquadramento contra-plongée e uma música apoteótica para o final do filme, diz nas entrelinhas que o Coringa é um revolucionário e não um criminoso psicopata, anárquico e egoísta. O personagem Coringa sempre foi pintado nos quadrinhos e nos filmes como um ser anarquista. Mas aqui não. Aqui ele age com propósito totalmente egoísta e pessoal. E isso é muito perigoso, especialmente para uma geração como a nossa, quem tem sérios problemas para interpretar a arte.

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