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BACURAU – CRÍTICA

Longa nacional premiado em Cannes aborda questões sócio-políticas em faroeste sci-fi.

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Kleber Mendonça Filho já se estabelece como um dos mais proeminentes cineastas brasileiros. Todos os seus trabalhos até hoje arrecadaram prêmios e elogios da crítica e do público ao redor do mundo. Suas temáticas sócio-políticas trabalhadas a nível pessoal aproximam o espectador de suas obras, uma vez que a visão crítica e a sensibilidade emocional conversam de modo legítimo com as vivências reais.

Em seu terceiro longa, Bacurau, Mendonça compartilha a direção com o conterrâneo Juliano Dornelles, reaproximando-se de seu trabalho de estreia no tocante ao contexto comunitário. A cidade interiorana que dá título ao filme se torna personagem da mesma forma que o bairro de classe média de O Som ao Redor, onde os ambientes físicos – sertão ou cidade – influenciam diretamente na construção social de seus habitantes. Essa reflexão sobre Psicologia Ambiental, em menor escala, também está presente em Aquarius, na relação entre a protagonista e seu apartamento. Não é a toa que os títulos das obras do diretor remetem aos locais em que se passam as narrativas.

O enredo se passa alguns anos no futuro, quando misteriosos eventos começam a ocorrer na pacata cidade de Bacurau, no interior pernambucano. O desaparecimento do local no mapa, um apagão geral no vilarejo, um drone que sobrevoa seus arredores e violentos ataques contra moradores fazem com que estes desconfiem que estão sendo acuados por um inimigo desconhecido. A escassez de mantimentos traduz a realidade do sertão nordestino ao mesmo tempo em que evidencia o contexto distópico futurista do longa, dificultando a sobrevivência dos habitantes na situação de encurralamento e forçando-os a reagir.

O roteiro, assinado pelos próprios diretores, trabalha pacientemente o cotidiano da cidadezinha à medida que introduz elementos estranhos àquele lugar, tornando o espectador familiar com a vida dos moradores e intrigado com o que há por vir. Embora não ouse em termos de estrutura, Mendonça e Dornelles quebram expectativas ao revelar o que há por trás dos misteriosos acontecimentos, desviando-se de convenções e surpreendendo o público da mesma forma que os personagens em tela.

O teor de ficção-científica e de faroeste são claros. Fã declarado de Tarantino, Mendonça filma as cenas de violência como um spaghetti western (“bang-bang à italiana). Porém, é perceptível a subversão e a ironia do cineasta ao utilizar elementos de gênero do cinema americano para criticar justamente o imperialismo cultural – que neste caso se estende para o âmbito territorial – imposto pelos Estados Unidos. A tensão milenar entre raças e classes, desta vez trabalhadas a nível global, são concretizadas com injustiça e terror no filme mais visceral do cineasta até hoje.

A ancestralidade, outro tema comum às obras do diretor, encontra em Bacurau um caráter que vai além do reconhecimento das origens e da valorização do território nativo, adquirindo uma função representativa da retomada de posse e acerto de contas do terceiro ato. Embora mais pontual neste caso, é algo semelhante ao que ocorre em O Último Trago, dos cearenses Luiz Pretti, Pedro Diogenes e Ricardo Pretti, onde é apresentado de modo mais contundente.

O elenco conta com grandes talentos, como o alemão Udo Kier, interpretando Michael, e Sônia Braga, que já trabalhou com Kleber Mendonça Filho em Aquarius e demonstra grande desenvoltura no papel da médica Domingas. Apesar da temática pertinente e da atmosfera de tensão, os diretores encontram lugar para o bom humor, algo tão presente na cultura nordestina e determinante em suas relações. Destacam-se aí Black Jr., que interpreta o DJ Urso, Thardelly Lima, que dá vida ao prefeito da cidade, e Rodger Rogério – famoso músico da época do Pessoal do Ceará – na pele de Carranca, um repentista que tem uma das cenas mais divertidas do longa.

Em tempos de repressão popular e desmantelo das estruturas democráticas, Bacurau emerge como uma voz de resistência artística. Não só ousa em ir direto ao ponto no tocante aos reais objetivos de quem detém o poder na luta de classes, como também aponta o dedo para quem é conivente e cúmplice do inimigo. Assim como Aquarius em 2017, o longa vencedor do Prêmio do Juri no Festival de Cannes se destaca como o principal concorrente a uma vaga ao Oscar 2020.

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