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AS HERDEIRAS – CRÍTICA

Ana Brun rouba a cena nesse belo drama intimista.

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A complexidade e beleza do universo feminino sempre foram abordadas em todos os segmentos da arte. Em As Herdeiras, uma produção maioritariamente paraguaia, somos levados a mergulhar de forma surpreendente nesse universo. Em todo o seu fascínio, mas também em suas dores.

Chela e Chiquita são casadas e ambas herdeiras de famílias abastadas, mas enfrentam uma série de dificuldades financeiras. Chela, interpretada pela atriz autodidata Ana Brun, é a  resignada e introspectiva da relação. Já Chiquita, interpretada por Margarita Irún, toma as rédeas da vida e de tudo o mais que as cerca. Devido as dificuldades financeiras, elas passam a vender boa parte dos itens valiosos de suas heranças e também por conta de uma fraude, Chiquita acaba sendo presa. É algo admirável a performance destas protagonistas. O talento de ambas é de encher os olhos. Existe uma verdadeira simbiose quando elas dividem a tela. Durante o encarceramento de Chiquita, Chela começa meio que involuntariamente a fazer um serviço de motorista para idosas ricas. É quando ela conhece Angy (Ana Ivanova), uma mulher atraente e muito mais jovem do que ela. A partir desse momento, Chela passa a vivenciar uma série de transformações e rupturas em sua personalidade e cosmovisão. E aqui é preciso destacar o trabalho impressionante de Ana Brun. Ela faz com que consigamos verdadeiramente enxergar cada nuance e faceta dessas transformações e rupturas, culminando por sua vez em profundas dores.

O diretor estreante, Marcelo Martinessi, prima tanto por essa imersão no universo dessas mulheres que quando aparece alguma figura masculina é em segundo plano ou desfocado. Sem diálogos ou qualquer importância. O que me leva ao trabalho de fotografia. Sempre planos fechados, usando e abusando de closes. São raros os momentos com planos mais abertos e quando eles ocorrem, a sensação é que estamos saindo de um elevador apertado e pouco iluminado. O que não deixa dúvidas de ser esse o propósito. Um intimista “olhos nos olhos”.

As Herdeiras já contabiliza mais de dez prêmios ganhos em diversos festivais ao redor do mundo, inclusive no Brasil. Realmente merecidos pela sensibilidade e profundidade com que aborda temas tão delicados como: solidão, solitude, homoafetividade, sexualidade na terceira idade, encarceramento feminino, dentre outros.

Tive também uma leve sensação de que Ana Brun carregava o filme nas costas. Se essa foi mesmo a intenção de Martinessi, eu não sei. A verdade é que ela deve estar muito feliz com o seu Urso de Prata de melhor atriz, conquistado no Festival de Berlim. Sua atuação realmente merece ser vista e admirada.

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