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ANIQUILAÇÃO – CRÍTICA

Ficção-científica lançada pela Netflix é corajosa e madura em sua proposta reflexiva.

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O gênero de ficção-científica tem se tornado cada vez mais genérico no cinema, funcionando apenas como pano de fundo para uma história que poderia ser contada em qualquer outro contexto. O visual diferenciado e a liberdade criativa geralmente são o que atraem autores e realizadores neste sentido, inflamando um enredo comum com características próprias do gênero que dão uma falsa impressão de personalidade. Porém, são raros os que realmente entendem as possibilidades da ficção-científica em termos filosófico-existenciais, propondo reflexões e questionamentos sobre a condição humana.

Alex Garland, que dirige e escreve Aniquilação, filme baseado na obra literária homônima de Jeff VanderMeer, entende isso. O realizador do excelente Ex-Machina retorna ao sci-fi em seu segundo longa, lançado pela plataforma de streaming Netflix. Bem mais ambicioso que seu precedente, Aniquilação acompanha a bióloga Lena (Natalie Portman), que depois de um ano vivendo em luto pelo seu marido Kane (Oscar Isaac), descobre sobre um misterioso local escondido pelo governo e se voluntaria para a missão científica liderada pela psicóloga Dra. Ventress (Jennifer Jason Leigh) a fim de explorar e colher dados do lugar. A equipe também conta com a geógrafa Shepard (Tuva Novotny), a paramédica Anya (Gina Rodriguez) e a física Josie (Tessa Thompson).

A premissa lembra de imediato outra obra sci-fi, infelizmente pouco conhecida do grande público: Stalker, de Andrei Tarkovski. Se neste clássico as motivações dos que se aventuram pela “Zona” são claramente pessoais, almejando a realização de seus desejos, aqui a equipe que adentra “O Brilho” mascara suas questões mais íntimas com uma justificativa científica. Todas as integrantes têm algo a resolver internamente e lhes falta esperança, tornando a equipe de cientistas uma equipe inconscientemente suicida.

O roteiro de Garland é paciente, mas assertivo nas discussões que propõe. Nos é dado tempo para conhecer os personagens e nos tornarmos parte da equipe, sentindo a atmosfera do estranho local e descobrindo aos poucos sua bizarra forma de funcionar, sem nunca cair no puro didatismo expositivo. Afinal, inspirado pelas melhores ficções-científicas do cinema, como Solaris, também de Tarkovsky, e 2001 – Uma Odisséia no Espaço, de Stanley Kubrick, Garland está mais interessado em levantar perguntar do que fornecer respostas.

Assim como tais, a obra em questão também se vale de situações catárticas que não necessitam de explicações científicas. Isto pode decepcionar grande parte do público, que prefere um enredo convencional que obedeça à lógica. Diferente de The Cloverfield Paradox, também lançado pela Netflix, que força uma explicação que não abarca as situações que expõe, a obra em questão assume a falta de sentido como tal.

A carência de entendimento, o deslumbramento diante do desconhecido e a limitação da consciência humana em relação às infinitas possibilidades do Universo são as bases de uma ficção-científica madura. Muitas vezes interpretamos o incompreensível como algo fantástico, pois o que não conseguimos encaixar em nossos pequenos padrões conceituais, julgamos impossível. Essas reflexões, atreladas às questões mundanas das personagens, dão riqueza ao conteúdo do filme, certamente gerando interessantes debates após a projeção.

Em algumas ocasiões, o filme ainda passeia por um território mais acessível ao público, com monstros que ameaçam o grupo frequentemente e promovem um caráter de urgência à missão que seguem. Entretanto, as peculiaridades naturais do local, que altera geneticamente qualquer ser vivo, criando belas particularidades teoricamente impossíveis aos olhos da ciência, é o que envolvem a trama em mistério e fisgam o espectador mais exigente.

Isto abre espaço para o design de produção de Mark Rigby e a fotografia de Rob Hardy literalmente brilharem. As cores que ilustram a diversidade genética d’O Brilho, que está em constante mutação, promovem uma atmosfera lúdica à película. A equipe de efeitos visuais faz um trabalho ironicamente realista, considerando as bizarrices inerentes ao lugar. Assim como em Ex-Machina, vencedor do Oscar de efeitos visuais em 2016, os efeitos digitais parecem orgânicos e integrados aos cenários e às criaturas.

Geoff Barrow e Ben Salisbury optam por uma trilha que destoa do esperado em uma ficção-científica. As intervenções eletrônicas são postas de lado em prol de um som mais visceral e parcimonioso, criando uma sensação intimista e sutilmente melancólica. Os músicos reconhecem que o foco do enredo não é “O Brilho” em si, mas as personagens lidando com ele em seus dramas particulares.

Entretanto, a película não é imune a falhas. Principalmente em suas últimas cenas, Garland se rende a certas definições, como se procurando uma espécie de conclusão. Algo que soa tão forçado que não faz jus ao que foi desenvolvido no próprio filme. Ainda assim, Aniquilação é corajoso e ambicioso em termos reflexivos, mais do que técnicos. Depois de Onde Está Segunda?, Bright e The Cloverfield Paradox, a Netflix finalmente nos apresenta uma ficção-científica legítima.

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