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‘A VIDA INVISÍVEL’ – CRÍTICA

Escolhido do Brasil para o Oscar mostra o quão poderosa a união entre as mulheres pode ser.

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Apesar da projeção se passar quase em sua totalidade nas décadas de 40 e 50, A Vida Invisível não poderia ser mais atual. Inspirado livremente no livro de Martha Batalha, o filme conta a história de duas irmãs, que mesmo tempo tendo personalidades e temperamentos opostos, são unidas pelo amor, amizade e companheirismo genuínos.

As duas vivem em um lar tradicional de origem portuguesa. Eurídice é a irmã com a verve artística musical pulsante e sonha em ir para o conservatório de piano em Viena. Já Guida, romanticamente sonha em viver (mesmo que às escondidas) um grande amor com um marinheiro grego. No auge dessa relação, elas são forçadas a se separar e daí adiante cada uma viverá as agruras de uma sociedade conservadora e machista.

O jugo do patriarcado pesa sobre a mulher casada, mãe e que almeja em expandir e explorar o seu talento musical. Pesa também sobre a mulher rejeitada, excluída pela sua família, que é lançada a viver a própria sorte num momento especial de sua vida. E não há como não pontuar aqui a estupenda atuação da dupla de atrizes Carol Duarte (Eurídice) e Julia Stockler (Guida). A telona do cinema chega por vezes a se apequenar diante do tamanho talento e sentimento que foi despejado no trabalho de ambas.

No elenco também temos Flávio Bauraqui, Gregório Duvivier e a participação mais que especial de Fernanda Montenegro, emprestando todo o seu talento para viver Eurídice num momento futuro. Outro grande destaque do núcleo de atrizes é Bárbara Santos (Filomena), que trouxe aquela pitada de humor e ginga carioca que um filme que se passa na Cidade Maravilhosa precisa ter.

O longa é dirigido pelo cearense Karim Aïnouz, que desde Madame Satã e O Céu de Suely vem se destacando e deixando uma marca muito forte no cinema autoral. De Praia do Futuro até o atual A Vida Invisível é indiscutível a sua importância no seguimento, e a escolha para disputar o pleito do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2020 apenas sacramenta tudo isso. Além de ter uma direção forte e fluída, Karim possui um apurado senso estético e a parceria com a diretora de fotografia francesa Hélène Louvart abrilhantou demais a experiência visual em assistir o longa. A paleta de cores quase te deixa sentindo o calor das paisagens e ruas do Rio de Janeiro. Uma fotografia que por vezes me fez lembrar o fantástico trabalho do célebre Gordon Willis na trilogia O Poderoso Chefão. Faço essa menção para quantificar o quanto toda a produção e detalhes estéticos e técnicos do filme são impecáveis.

As locações, ambientações e a trilha sonora são um verdadeiro oásis para os apreciadores e amantes da sétima arte. Sinto sinceramente que todo o esforço e carinho empregados nesta obra são para, além de tudo, deixar uma reflexão, uma marca, uma mensagem e as palavras da própria Julia Stockler, antes da exibição do mesmo na abertura do 29º Cine Ceará, traduzem isso de forma categórica, “As mulheres juntas são muito mais fortes e eu acho que esse filme fala sobre isso.” Nos resta agora torcer para que essa vaga na disputa do Oscar se concretize de fato.

A Vida Invisível já é um orgulho nacional e com toda certeza possui todos os elementos não só para disputar a vaga, mas também para trazer o troféu para casa.

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