CORRA! – CRÍTICA

CORRA! – CRÍTICA

Terror surpreende com história envolvente e subtexto social relevante.

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get-out-posterJordan Peele é um ator, escritor e produtor americano, mais conhecido por seus trabalhos de comédia, atuando e escrevendo desde esquetes de humor até filmes do gênero. Interessante perceber que seu primeiro trabalho como diretor seja voltado ao terror. Algo semelhante aconteceu com Kevin Smith, que depois de dirigir alguns títulos de comédia, aventurou-se pelo horror em algumas obras mais recentes. Como o próprio Peele já disse, por mais opostos que possam parecer, os dois gêneros compartilham a mesma ideia central: causar uma reação visceral no público, seja de alegria ou medo.

Em Corra!, o diretor não só se desafia a trabalhar com algo que não está acostumado como vai um pouco mais além, elaborando um subtexto social bem definido ao longo do enredo. O filme conta a história de Chris (Daniel Kaluuya), um jovem que sai em viagem com a namorada Rose (Allison Williams) para conhecer os pais da moça. Chris está um pouco receoso pelo fato de os pais de sua namorada não saberem que ele é negro, fato que pode gerar inconvenientes de natureza racista durante o fim de semana que irão passar juntos. Chegando lá, o rapaz é bem recebido, mas começa a perceber estranhas situações e comportamentos na família de Rose e em seus empregados.

Peele também escreve o roteiro, que é muito bem arquitetado para que o espectador entre em uma atmosfera quase sobrenatural de paranóia e mistério. A história se desenvolve pacientemente, mas nunca de forma cansada, sempre apresentando uma nova informação, mas sem entregar o que realmente está acontecendo até a hora certa. Talvez essa artimanha tenha sido tão bem executada devido ao timing de comédia do diretor.

E por falar em comédia, ironicamente este é o ponto fraco do filme. Não que alguns momentos de leveza não sejam bem-vindos à densidade da trama, podendo inclusive beneficiar o ritmo desta. O problema é quando o diretor pesa muito a mão nestas cenas, arriscando perder o público nas risadas em detrimento da gravidade da situação. Embora Rod (LilRel Howery), amigo de Chris, não sirva apenas como alívio cômico, tendo um relevante papel na história, é apenas nele que se foca o humor, deixando-o deslocado durante grande parte da projeção até que o personagem cumpra sua real função.

Já Kalluya foi a escolha perfeita para o protagonista. O ator, mais conhecido por seu papel em um dos episódios da série Black Mirror, tem uma fisionomia que combina muito com seu personagem. Os olhos grandes e expressivos, somados à uma linguagem corporal meio desajeitada, evidenciam certa ingenuidade em Chris, o que é muito importante para compreendermos sua vulnerabilidade e suas ações.

O subtexto de temática racial é inserido de forma orgânica. Embora o assunto seja abordado livremente durante o filme, é apenas quando o mistério é revelado que percebemos a força do discurso de Peele. A conflituosa relação histórica entre brancos e negros, infelizmente ainda muito atual, é resumida em uma metáfora perspicaz.

Corra! é uma grande surpresa, não só por ter uma qualidade acima da média entre os filmes de terror, mas também por vir de alguém tão improvável a realizá-lo. Jordan Peele prova que tem múltiplos talentos, fazendo o espectador sair do filme curioso e ansioso em relação ao que o diretor fará em seguida.

nota-8

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