COLOSSAL – CRÍTICA

COLOSSAL – CRÍTICA

Longa de premissa inusitada lida com temas que extrapolam as convenções de gênero.

13
0
COMPARTILHE

Colossal posterAo assistirmos ao trailer de Colossal, ficamos com a impressão de que o filme é apenas uma comédia inofensiva que não tem muito a oferecer além de uma premissa bizarra e piadas divertidas. Já quando assistimos ao filme em si, a ideia que temos a seu respeito é completamente diferente e bem mais interessante.

Na trama, Anne Hathaway interpreta Gloria, uma jovem adulta cuja vida se resume à festas e muita bebida, o que causa problemas com seu namorado Tim (Dan Stevens), fazendo com que ela tenha que sair do apartamento que ambos dividem em Nova York. Ao retornar para sua antiga casa em uma pequena cidade, a jovem reencontra Oscar (Jason Sudeikis), um amigo de infância que se mostra bastante prestativo em ajudá-la com sua nova vida improvisada.

Toda essa história de nível pessoal parece menos importante quando um monstro gigante aparece literalmente do nada e ataca a cidade de Seoul, capital da Coréia do Sul. Gloria fica abismada com a notícia, mas não tarda em perceber por meio das imagens da televisão e da internet que o monstro imita cada um de seus movimentos em horário e local específicos.

O primeiro ato se desenvolve como uma típica comédia romântica, com boas doses de humor, conflitos de relacionamento e novas amizades. Porém, é inevitável percebermos uma camada de seriedade no conteúdo da trama, mais do que em seu formato. Tanto que, por mais deslocado que o surgimento do monstro pareça ser, a vida de Gloria é afetada a nível emocional de uma forma mais profunda do que podemos imaginar de início. Afinal de contas, o monstro destrói vidas reais, e a protagonista passa longe de ser um exemplo de responsabilidade.

Hathaway, que já é acostumada a interpretar personagens bonitinhas, desajeitadas e carismáticas, aqui tira de letra essas características, mas também consegue entregar outras camadas de dramaticidade que sua personagem exige.

Entretanto, inesperadamente, é Jason Sudeikis quem rouba a cena. O ator tem em seu currículo bons títulos de comédia, mas nunca realmente havia se destacado em algo além do gênero. Neste caso, seu personagem parece ser apenas um interesse amoroso de Gloria, servindo como escada para o arco da protagonista, mas acaba se revelando o personagem mais complexo do longa. O ator consegue evocar no público diferentes emoções e opiniões seu respeito de Oscar, que podem ser até contraditórias entre uma cena e outra, mas sempre de forma intencional e convincente.

O elenco coadjuvante também não deixa a desejar. Dan Stevens, apesar do pouco tempo de tela, tem uma presença muito grande com seus trejeitos ansiosos, dando um caráter levemente cômico ao papel. Isso transforma um personagem unicamente funcional em alguém com personalidade e carisma, o que se torna importante em certos para eventos que se dão no desenrolar da trama.

Tim Blake Nelson e Austin Stowell, que interpretam respectivamente Garth e Joel, amigos de Oscar, também se destacam. Não são os velhos estereótipos de coadjuvantes amigáveis e engraçados que costumamos ver em comédias românticas ou dramáticas. Ambos tem uma personalidade bem definida e arcos próprios que são apenas sugeridos. A química do quarteto de amigos é ótima, com destaque para Garth, que sempre questiona os fatos e as escolhas dos personagens, como se cumprisse o papel do espectador em relação ao roteiro do filme.

No fim das contas, a revelação sobre o motivo pelo qual há uma conexão entre Gloria e o monstro não é convincente, deixando mais perguntas do que respostas. É uma maneira forçada de tentar explicar algo que na verdade não é o mais importante da trama. Talvez por isso, o filme ainda se sustente, pois não depende totalmente dessa explicação para sua inevitável resolução.

Nacho Vigalondo, que escreve e dirige o longa, lida com temas como alcoolismo, depressão, dependência química e relacionamentos abusivos, explorando-os de maneira inteligente através de metáforas precisas que se aproveitam do gênero para tratar de assuntos pouco presentes no cinema hollywoodiano.

Colossal não é um filme para todos. Os espectadores desavisados podem se decepcionar com o tom que a narrativa vem a adquirir. Não é apenas uma comédia e muito menos um filme de monstro – pelo menos não no sentido literal. O longa é válido para aqueles que gostam de ser surpreendidos e estão abertos à ousadia dos realizadores.

nota-7-5

Anuncie no Cinemaginando
Anuncie no Cinemaginando
Anuncie no Cinemaginando

SEM COMENTÁRIOS

DEIXE UMA RESPOSTA